as dores do chute na bunda

boa sorte. um bom novo trabalho. volte logo.
assim se despediu o pequeno e enrugado médico do trabalho com quem eu fiz meu exame demissional - e que também tinha feito o meu exame admissional e um outro entre esses dois.
ser demitida é chato. fazer o exame demissional é chatíssimo. eu estava naqueles primeiros dias de demitida, me esforçando pra fazer cara de quem NÃO levou um chutão na bunda. requer esforço e elegância.
mas eu achei tão doce a frase do médico que saí feliz da vida daquele cafofo onde todos os dias dezenas de pessoas vão fazer algum exame relacionado ao trabalho.
depois da tontura da primeira semana, me dei conta de uma coisa que eu já falava, mas precisava sentir: todo pontapé que levamos é bom, mesmo quando achamos ruim. a vida vai nos chutando e a gente vai sendo arremessado pra frente. até porque na vida não tem pra trás: não podemos voltar, só ir.
e hoje, mais de um mês depois, me dei conta de outra coisa: que quem fala que é bom "sair da zona de conforto" possivelmente tem uma vida beeeeeeeem cheia de conforto estabilidade posses e mimos, e diz o que diz porque acha que isso é bacana, traz uma imagem de wow-você-é-mesmo-descolado.
quem gosta de desconforto? quem gosta de não saber quanto vai receber em um mês - e SE vai receber, porque se não trabalhar não vai receber nada? quem gosta de não saber se vai ter dinheiro na conta no dia que vencer a mensalidade da escola dos filhos?
não conheço.
e sem rodeios, a verdade é que é muito duro viver. com ou sem trabalho, com ou sem filhos, com ou sem dinheiro. não existe um modus vivendi mais fácil - para desapontamento de personnal coachers (será que é assim que se escreve?) e magos da felicidade. e é aqui que entra outra descoberta minha após o chute na bunda: se o que temos para hoje é um dia de ócio, lá vou eu vivê-lo.
devemos vir com algum defeito de fabricação pra pensarmos que a vida sem um emprego é uma vida vã. que quem não vai pro escritório não tem o que fazer e fica deprimido. que procurar trabalho é uma atividade enfadonha.

quem não vai pro escritório pode fazer quiabos crocantes para o almoço!

o ócio pode ser uma fonte de alegria gigantesca. procurar trabalho pode ser divertido e animador, afinal, se você for bom nisso, você vai almoçar ou tomar café da manhã ou sair pra jantar ou só pra tomar um café com muitas pessoas legais, que você às vezes não via fazia muito tempo. ou pra quem você nem dava muita bola. é sempre bom mudar a perspectiva do olhar para também mudar os velhos e tão chatos pontos de vista.
mas gastar dinheiro sem estar recebendo um salário? o quêêêê?
sim. faz parte da alegria de estar desempregada - ou mais politicamente correto "em situação de ócio", ah ah ah.
graças à maternidade tenho alicerces pesados que me ligam à realidade concreta e me impedem de ir pra grécia passar uns dias mergulhando, ou à nova york para passar uns dias comprando. ou visitar minha amiga no sul da bahia e comer muito peixe fresco.

vista do começo da subida do rio em itacaré (BA), numa tarde de segunda-feira.

nesses dias de procura por frilas e fixos, descobri pessoas queridas, e outras gentis, que me mandam links como vagas de trabalho. descobri também pessoas fuçando no meu linkedin, de onde sempre desconfio que nunca sairá nenhuma oportunidade legal de trabalho.
você gosta de trabalhar ou você precisa trabalhar?, ela me perguntou.
eu fiquei olhando, pensando que se eu dissesse "os dois", talvez a minha resposta fosse de baixo impacto, e eu queria que fosse uma resposta de alto impacto. quieta, respirei, e saiu da minha boca um nada lisonjeiro "sou mãe solteira".
fim de papo. ela ficou impressionada. eu nem queria tanto, mas a frase escapou antes que eu pensasse em algo melhor pra dizer.

casinha remanescente em pinheiros. pessoas demitidas andam muito.



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