segunda-feira, 1 de maio de 2017

lidando com a (própria) sujeira

um fim de semana grudado com um feriado na segunda-feira e com uma greve geral na sexta-feira é um fim de semana longo. 
depois de uma sexta-feira gloriosa - sim, a greve rolou; não, eu não fui à manifestação; sim, eu tenho vergonha da cobertura jornalística feita por quase todos os veículos; e não, eu não consegui lavar roupas na lavandeira porque ela estava fechada! -, acordei sábado com a certeza de que a minha adorável faxineira chegaria a qualquer momento. mas este momento não chegou. ainda que na minha casa já tenhamos passado daquela fase em que se não tem alguém para limpar arrumar guardar a casa fica parecendo um campo de guerra, as vindas da ana a cada 15 dias deixam a nossa casa de um jeito que nós não conseguimos. usamos vassoura e sapólio, mas a ana usa cândida e álcool...
eu conheci a ana mais de 20 anos atrás, quando ela limpava a casa onde eu morava com meu ex-marido. depois nunca mais tive dinheiro para ter uma faxineira, mas ela era um anjo da guarda que aparecia em horas difíceis, como quando a santa nalva tirava férias de 30 dias, eu seguia trabalhando e meus filhos estavam comigo DURANTE AS FÉRIAS ESCOLARES deles, não minhas.


montanha de roupas sujas socadas no cesto

liguei pra casa dela algumas vezes, mas estava sempre ocupado. e como a ana é dessas pessoas raras, que não usa celular, eu não tinha mais o que fazer senão partir pra luta. lavar a louça, varrer a casa, lavar banheiro e, oh my god, começar a lavar a roupa suja que aguardava no cesto fazia quase duas semanas, desde que a minha lavadora tinha quebrado. mas a minha máquina nova tinha acabado de ser instalada. wow!
o dia estava cinza e fazia frio. eu estava desapontada em ter de trocar passeios de bicicleta por uma faxina meia-boca que eu mesma teria de fazer. em algum momento na minha vida de menina mimada (provavelmente quando nasci) me acostumei com alguém arrumando e limpando a casa onde eu morava. e o caminho para se acostumar a arrumar e limpar a própria casa é longo - e feliz também.
...
no domingo duas amigas viriam em casa para fazermos um almoço alemão. mas eu tinha de fazer a sobremesa antes. enlouqueci e resolvi fazer uma receita que eu nunca tinha feito, uma nusstorte. a receita, austríaca, é de um livro de receitas maravilhoso da rosa belluzzo, prima do meu ex-marido (cozinha dos imigrantes).  


o pão de ló com chocolate meio amargo ralado e nozes picadas
 
a calda 
as nozes para a decoração
aha! a torta 
eu adoro ter amigos na minha casa. mas dessa vez foi mais adorável ainda, porque o gustavo era o nosso convidado especial. ele veio para o primeiro evento social da vida dele fora da barriga da mãe. 

lívia distrai o pequeno gustavo enquanto as mulheres se divertiam na cozinha 

e entre uma chorada e outra, troca de fralda e mamadeira, e uma ida ao supermercado para comprar vinhos, fizemos um almoço espetacular. goulasch com spätzle. a paula, cozinheira-chefe do nosso almoço, nunca tinha feito goulasch. então dividimos, eu fiz a carne, ela fez a massa.
o gustavo resmungava, a paula dizia que assim não ia dar pra fazer o almoço, e eu pensava em voz alta que não tínhamos pressa. 
...
a paula é mãe solteira, uma mulher brava e corajosa. a judith não tem filhos biológicos, mas tem uma enteada e convive muito bem com as amigas que são mães. 
juntar amigos na cozinha é sempre uma alegria. talvez por isso a minha cozinha seja muito frequentada - ah ah ah, frequentada parece coisa de clube, "o clube é muito bem frequentado". 
poder falar sobre a nossa vida enquanto comidas são preparadas no fogão é bom. do que está bom e do que está ruim. do que temos feito e do que temos de fazer. 
eu estava com a boca cheia de água para picar as dez cebolas que eu tinha de picar quando escuto o seguinte: "nesta semana eu me senti muito incompetente. e ainda bem que a tita está com a boca cheia de água porque ela não vai poder dizer nada". eu seguia com a boca cheia de água picando as cebolas e ela seguia explicando como foi horrível chegar a uma visita atrasada por conta de um pau no computador. chegar a um encontro com amigas atrasada por conta de um cliente insano, ter o computador quase morto mas conseguir fazê-lo voltar à vida sozinha, esquecer do imposto de renda e se sentir muito incompetente. e então ela disse o melhor de toda a história: que resolveu fazer UMA coisa de cada vez durante a semana. 
comemos muito, falamos muito e o almoço acabou quando já era noite e todas tínhamos falado de como era especial ter esses encontros.
...
o fim de semana longo de quatro dias vai terminar hoje. para o almoço terei um maravilhoso goulasch. e de sobremesa, a torta de nozes, fabulosa, que me fez pensar tanto na minha mãe, que amava e sabia fazer tortas inesquecíveis. 
finalmente fui cuidar da minha horta, colocar terra nova, adubo, cortar galhos secos, trocar algumas plantas para vasos maiores.

o alecrim, que é vizinho de vaso do manjericão, cuja sombra aparece na parede

eu não sou dessas que cuida muito bem da horta. só cuido bem. 
enquanto eu cortava com uma tesoura os galhinhos secos do manjericão e pensava que uma das abelhas gorduchas que sobrevoavam por ali poderia me picar, percebi que mexer na minha pequena horta me faz não pensar em nada. ops! sem palavras para descrever.

o capim cidró da horta que eu nem cuido com tanto afinco
lembro agora da conversa de ontem na cozinha. "o que você está fazendo?" eu terminei um frila. e não tenho nenhum outro. então eu vou ter de ir atrás de trabalhos. 
e em vez de sentir falta de ar, eu sinto uma alegria enorme. enorme mesmo, não estou exagerando. acho muito massa poder ir atrás de trabalho. acho que bons trabalhos podem - e vão - surgir.
bom fim de feriado.
:)



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