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os dias nada divertidos passados ora na cama, ora no sofá

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nós éramos três. morávamos na última casa da rua, que era uma rua sem saída. antes da reforma, a casa era pequena e ocupava metade do terreno. a outra metade era ocupada pelo jardim. brincávamos muito. tanto em casa e no quintal quanto na rua. naquela época os pais eram corajosos e deixavam os filhos na rua até a noite chegar, hora em que as crianças voltavam pra casa contra a sua vontade para tomar banho, jantar e dormir. nós três tentávamos brincar juntos, mas era difícil. meu irmão, dois anos mais velho, tinha mais energia que nós duas. minha irmã, dois anos mais jovem do que eu, aceitava brincar, mas não lembro da nossa interação. e eu era uma chata.  brincávamos de playmobil. e para horror do meu irmão, a minha brincadeira era sempre, sempre a mesma. eu escolhia um boneco homem e um boneco mulher, que formavam um casal. eu escolhia peças para uma pequena casa e cerca, e montava a casa deles, cercada. lembro de às vezes escolher um guarda que cuidava da casa deles. essa era a...

pode parar

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"diz-se que tudo que procuramos também está à nossa procura; que, se ficarmos bem quietos, o que procuramos nos encontrará." eu já conhecia a frase, mas me deparei com ela novamente ontem, num livro que eu acabei de ler e recomecei, pra ir entendendo o que eu vou entender em uma vida inteira de leitura (a propósito, o livro é "mulheres que correm com os lobos", uma enxurrada de conhecimento acerca do feminino que toda mulher e todo homem deveriam ler algumas vezes para que cheguemos perto de algo que está muito, muito distante da maioria de nós). e agora, deitada no sofá, de banho tomado, com um lenço de seda ao redor do pescoço para aquecer uma garganta dolorida e suando como se tivesse voltado de uma corrida de uma hora, a frase ficou fazendo pim pim pim na minha cabeça. eu adoeci. e tenho a impressão de que esta é a doença de dezembro. o ano vai acabando, a minha exaustão vai subindo e, sabiamente, meu corpo dá uma desacelerada. fico doente pra me curar da min...

um ano sem comprar: eu consegui!

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ele é muito inteligente, e sempre me diz coisas que eu jamais imaginei. abri meu armário para mostrar a ele, que tinha ficado uma semana fora, a incrível organização. e suspirei, "mas passado um ano, meu armário segue cheio". "as coisas acabam menos quando você não compra nada", me disse. "e acabam mais quando você compra." uau. era isso. a conversa aconteceu umas três semanas atrás, quando eu estava perto de atingir a minha ousada meta de passar um ano sem comprar roupas (nem sapatos ou acessórios). parabéns, eu digo pra mim mesma. eu completei meu sabático. que alívio, que alegria, que liberdade. eu mando na minha carteira. eu não compro só porque está em promoção. eu preciso de muito pouco. um ano sem comprar não é pobreza, é fartura. porque só se compra o necessário. e faz você se dar conta do que é realmente necessário. e o necessário, desculpa desapontar nosso consumista interior, é muito, mas muito pouco. eu fui me livrando de tudo o que não er...

apreciar ficar só é uma dádiva

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acordei e olhei pelas frestas da porta do quarto, que estava fechada. vi que a luz do dia ainda era fraca. e eu estava certa. depois de anotar um sonho um pouco confuso, olhei no relógio do celular. eram 6h30. não sabia se hoje faria sol ou se seria um dia nublado. só sabia que seria um dia fresco como ontem. em que não usar meias pode ser um ato de coragem, mas usá-las pode dar calor. ao abrir as janelas enxerguei o céu azul. fugi para o parque. queria deixar meus pensamentos de lado, em casa, e vir sozinha ao parque tirar o mofo do corpo, dos meus órgãos, do meu olhar e da minha alma. mas meus pensamentos, teimosos, vieram comigo. a cidade virou uma cidade-fantasma. um domingo pós feriado na sexta é sempre uma alegria nesta cidade tão grande e tão cinza. seus moradores fogem rumo ao interior, ao mar ou às montanhas. eu fujo em direção a mim mesma. enquanto o sol esquenta o meu corpo, olho ao redor. aviões passam quase sobre a minha cabeça, quero-queros voam e cantam e algumas pes...

o que aprendi em um ano sem comprar roupas

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existem pessoas que ficam obcecadas com alguns temas. e eu fiquei com essa história do meu sabático de compra de roupas. não, não faz um ano. ainda faltam 24 dias pro aniversário. mas eu já aprendi um tanto e como as lições são libertadoras, eu resolvi compartilhá-las. claro que por vezes penso 'meu deus, será que uma pessoa não tem mais nada pra fazer na vida pra ficar obcecada com o fato de não comprar roupas?' mas pensando bem meus interlocutores costumam mostrar um certo interesse quando abro a minha boca pra discorrer sobre o tema, sobre os meus achados e tals. sim, eu pensei, na minha cachola tão criativa, que este ano sabático seria transformador. que eu me tornaria outra pessoa. ah ah ah. na verdade em vários momentos eu senti tédio. mas que falta de insights!, que falta de emoções arrebatadoras!, que falta de sensações do tipo u-a-u! vida que segue. e vamos às lições, que nada têm de u-a-u. 1. ansiedade a minha musa inspiradora, Lucy Shea , disse há muito que qua...

rica, mesmo sem um tostão

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"não importa o quanto eu tenho, eu sempre me sinto rica." a frase eu peguei emprestada. de uma mulher sábia. e belíssima. a vida é bem simples: ela nos mostra o que precisamos ver/enfrentar/ultrapassar para aprender. e isso fica bem evidente quando você escuta uma frase e pensa uau, vou pegar emprestadas essas palavras sábias e vou colá-las no meu coração (sim, porque nos lembramos não do que está na mente, mas do que está no coração. uma pena as escolas estarem tão distantes disso). eu tenho passado por uma fase financeira instável. já faz uns anos. e, claro, vou melhorando aqui e ali. mas ainda é uma fase instável. depois de desistir de brigar por pensão de alimentos de filhos + de a transportadora que o meu pai tinha ir à falência + de ficar desempregada, a vida mostrou pra mim uma realidade que eu desconhecia. em português claro, "te vira, meu bem". eu sei que eu sou uma pessoa com muitos privilégios neste mundo desigual e por isso só escutei o "te vira...

perdi os meus óculos (e achei a minha paciência)

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deve significar algo. todas as coisas que acontecem têm um significado. saímos para comprar um par de tênis. ele não tem tênis para correr e combinamos que no sábado iríamos resolver isso. eu estava deitada no sofá lendo quando ele apareceu na sala e disse que estava pronto. escovei os dentes, tomei muita água e saímos. o dia estava ensolarado e quente depois de uma semana fria e chuvosa. andamos, não encontramos nenhum tênis que o agradasse, tomamos o sorvete mais doce da minha vida e acabamos com as muitas moedas que tínhamos dando para quem nos pedia. quando cheguei em casa fiquei feliz de tirar os sapatos e sentir o chão de madeira debaixo dos meus pés. fui procurar os meus óculos. nada. a tela do meu computador ficou listrada. era um dia cheio de acontecimentos. a cidade cinza ficou branca por uma semana. depois, o chão foi tomado pelas flores dos ipês  no dia seguinte saí para andar. e pensei ah, que ótimo, finalmente irei a um oftalmologista e farei uns óculos de ...