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je m'apelle tita cornichon

eu andava pensando nos pepinos. meu pai sempre diz que "pepino depois de grande não endireita". ele fala com gosto, de uma forma mui elegante, quando quer espinafrar um sujeito que não presta. e eu, que não posso espinafrar todos os que acho que merecem ser espinafrados, estava me sentindo uma empepinada. não sei se a palavra existe. mas com minha postura fina de moça que trabalha demais - e anda com os ombros curvados, uma coisa horrorosa - disse que não me chamaria mais tita berton, mas tita cucumber. ao que escuto "tita cornichon é melhor". putaqueopariu. por que será que qualquer palavra em francês é mais bonita, mais forte, mais doce aos ouvidos? "je m'apelle tita cornichon", eu fiquei repetindo. "enchanter", ele disse. fui dormir gargalhando, e acordei rindo. e agora, com os ombros travados - pepinos, muitos pepinos -, ainda me divirto. fiquei pensando que tita cornichon pode ser o nome da minha empresa. ninguém vai saber o que signific...

do avesso

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nada como uma bela foto pra mentir que a vida é bela. tem dias em que as coisas parecem do avesso. o problema é quando, depois de semanas, tudo continua parecendo do avesso. eu preferiria tomar uma taça de vinho a trabalhar e pensar em vários projetos ao mesmo tempo. faz quase um mês que não escrevo porque penso em como às vezes não há nada a dizer. mas isso não passa. há quatro rascunhos salvos. cada um com uma ou duas palavras. ando com os ombros curvados para a frente, e não tenho um espelho pra ver, mas me parece que ando com uma cara de bruxa infeliz. afe! acho ruim até o que é bom. o cansaço foi dar uma volta e deixou em seu lugar a exaustão. tem horas que tenho certeza de que vou desmaiar se não me deitar imediatamente. não acho graça em nada. aliás, não é em nada, é em mim. o que é o pior dos cenários. como diz clarice lispector, "ando com saudade de mim", eu ando com saudade do lado bom. que horror! vejo pessosas animadas, que me contam maravilhas, da vida, do trabal...

a justiça, a comgás e o saco cheio

tudo começou quando eu fui passar férias nos pampas com as crianças. ficamos 15 dias no sul, e nos outros 15 dias do mês de férias das crianças elas viajaram com o pai delas. mas a comgás mandou pra minha casa uma conta mais alta que o normal. no mundo civilizado, o consumidor liga pra companhia, pede revisão de conta, e tudo se resolve. em "oito dias", me disse o primeiro atendente. e o segundo, o terceiro e todos os outros. passado um ano, meses em que não recebi conta nenhuma, meses em que paguei 6 ou 9 reais, trocentos protocolos de atendimento anotados, e chega uma conta de 500 reais. bingo. no mundo civilizado, o consumidor liga pra companhia, descobre que houve um engano e tudo se resolve. mas eis que os atendentes da companhia me diz primeiro que meu consumo não foi registrado por 2 meses. outro atendente diz que não foi possível fazer a leitura do relógio por 3 meses. por fim, outro me diz que foi por 6 meses. no trabalho, me indicam o tribunal de pequenas causas, qu...

o mundo mais que imperfeito

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queria ter um dos meus violões agora, pra tocar e cantar. mas não tenho nenhum. vou colocar na lista de compras. um violãozinho lindo que eu ganhei aos 8 anos eu troquei por um tapete feito de lã de ovelha. o outro quebrou, e eu não mandei consertar e o doei assim, quebrado. agora faz falta, depois de quase 10 anos. cheguei em casa há pouco, depois de trabalhar muitíssimo. e surpresa!, as criaturas estavam acordadas!, e a criatura que é paga para cuidar deles mas não para educá-los me olhava com sua doce cara de baiana sossegada - cara esta que não tem nada de sossegada quando as criaturas em questão são os filhos dela. aí ela vira bicho. mas os filhos eram os meus e não os dela. então eu disse tchau-você-pode-ir-embora e perguntei pro joão se ele tinha feito a lição. não, não tinha. assim como não tinha ido à natação. minha filha tinha dormido à tarde, coisa que não deve acontecer senão a guria não dorme à noite. mas como eu tenho ficado muito, muito brava por muito menos, nem me irri...

ADORO MUITO VC

era pra ser mais um daqueles dias ordinários. ela acordou quando o despertador tocou, e foi pra cozinha, no escuro, preparar o café da manhã e as lancheiras das crianças. e então sentiu as lágrimas quentes que escorriam pelas suas bochechas. o lusco-fusco iluminava a cozinha. e espaços entre as nuvens no céu a fizeram pensar que o dia poderia ser ensolarado. ela fez o que tinha de fazer na cozinha, depois tomou banho e se vestiu. usou uma blusa que comprou numa liquidação - mas por que liquidações são tão irresistíveis? ela pensou depois de fazer umas compras - e que ficou maravilhosa. quando estava tudo pronto, era a hora de chamar as crianças. a doçura é tão importante quanto a paciência para uma vida decente. ela andava pensando muito nisso nos últimos dias. e com essa ideia na cabeça foi, no escuro, acordar os pequenos. o dia estava preparando muitas surpresas para ela, mas como ela ia saber? as crianças acordaram num bom humor inacreditável. depois de vestidas, tomaram café da man...

sobre intimidade, febre e dor de barriga

fui acordá-la de manhã cedo. e ela, ao abrir os olhos, olhou pra mim e começou a chorar, com aquela boca linda, que fica enorme quando ela chora com mágoa. coloquei a mão na testa dela. estava fervendo. pronto. simples assim. a isso eu chamo de intimidade. mãe conhece o filho e assim fica fácil de perceber quando tem alguma coisa diferente. resumo da ópera: fui dar um rolê no pronto socorro pela primeira desde que virei mãe, quase 9 anos atrás. lembro de uma vez ter levado um motoqueiro para o pronto socorro. o cara tinha se acidentado na nossa frente, e eu e meu marido colocamos o cara no carro e o levamos, ele sangrando e dizendo que estava tudo bem. mas desta vez foi diferente. ninguém sangrava. e eu estava com dor de barriga, frio na barriga, embrulho na barriga. liguei pro plano de saúde pra saber pra onde levaria minha filha. e fomos, ela perguntando por que eu estava fungando, e dizendo categoricamente que não permitiria nenhuma agulha espetada no corpo dela. e eu sem jeito pra ...

o que falar sobre a felicidade?

dias e dias pensando em escrever. dias e dias morrendo de sono e indo pra cama num horário completamente surreal. e então finalmente me sento aqui, descubro o ~~~~ do meu teclado novo e não sei o que escrever. uma felicidade estranhíssima chegou, e eu andei por lugares esquisitos, vendo gente estranha, daquelas que fazem cara de veja-como-eu-sou-cool,-você-percebe-como-eu-sou-feliz-e-incrível?. não vomitei, mas quase. ah ah ah. o problema de escrever num blogue é que você não pode dar nome aos bois. tipo se sou escrota com uma pessoa e fico me remoendo por dois dias não posso dizer "estou com insônia porque mandei à merda a fulana de tal". ora pois. a felicidade é um estado mui estranho quando vem assim devagarinho e em silêncio. questões imbecis do tipo "nossa!,-estou-me-sentindo-tão-leve-hoje" e "meu-deus-que-homem-lindo-mas-como-é-gordo-e-pode-ser-casado-com-esta-barbie?" aparecem com a tal da felicidade. sim, eu fiquei exultante. desculpa aí, mas foi i...