Postagens

a vida pode ser sexy

é engraçado, quase sinistro, como a vida fica interessante quando damos tempo para viver um dia depois do outro. hoje eu andei de roda gigante umas cinco vezes - e olha que não me aventuro em brinquedos hardcore há mais de uma década! enquanto me concentro, as longas cortinas da enorme janela da sala voam animadamente com o vento que finalmente traz refresco. o silêncio reina na casa. as crianças voltaram de uma festa longínqua. vieram de carona com o daniel que, suíço que é, trouxe meus filhos no horário combinado - depois de alguns telefonemas e negociações quase desesperadas dos meus filhos, que queriam ir atrás de doces no condomínio lá nos cafundós; o halloween anda fazendo um sucesso desnecessário aqui na bananaland. então vamos à roda gigante. ... "você é tão simples e tão chique", ele me falou, enquanto eu andava alegremente rumo ao trabalho. ele é um menino adorável, mora na favela, trabalha muito. quer ser jornalista, e tenho certeza de que poderá ser um dos bon...

la felicità

Imagem
ele me disse que acabou com o perfil dele no facebook. não era nada de mais, mas ele achava que a vida dos outros era mais divertida que a própria. eu não acreditei quando ele me disse isso. mas ele continuou, sério: "e falei pra minha analista. o facebook é ruim pra autoestima". achei esquisito. eu acho tudo do facebook tão fake, tão over. aquelas fotos de gente feliz, de dez anos atrás, com 15kg a menos, pelamordedeus. e as fotos das famílias doriana? e as frases de amor? ... falávamos sobre trabalho, e sobre uma vaga a que meu amigo está concorrendo. tudo top secret, eu ouvindo atentamente, ele dizendo "tita torce por mim". e então ele disse que precisa trabalhar num lugar em que as pessoas sejam valorizadas. eu ri e disse que eu também. mas ele foi enfático. ele precisa muito disso. fiquei pensando: o cara é inteligente, competente, educadíssimo, trabalha muito bem - já trabalhamos juntos - e ainda por cima é belíssimo. hellooooooooo!, imagina se o cara fosse...

a resiliência

Imagem
Acepções ■ substantivo feminino 1     Rubrica: física.      propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica 2     Derivação: sentido figurado.      capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças   ... os dias estavam sendo longos. sorte é que eu fico muito cansada, e preciso dormir cedo. senão teriam sido dias mais longos ainda. quem tem filhos sabe que eles entram em férias. diferentemente dos adultos, que trabalham o ano todo pensando nas férias, fazendo planos, contraindo dívidas, as crianças entram em férias e nem se dão conta. "sim, filho, você está de férias" é uma frase que é repetida dezenas de vezes. ou "você ainda tem 26 dias de férias". e como crianças são mais sábias que nós, adultos, a vida deles segue tranquila mesmo durante as férias. eles acordam no mesmo horário, e ficam pron...

o rolo compressor e a elizabeth bishop

o banheiro teria de ser parcialmente quebrado. diferentemente do que eu tinha imaginado - vamos quebrar tudo, colocar outros azulejos, pensar noutro piso, e adeus fabuloso trabalho de mosaico com a bela carpa! -, a coisa ficou simples. dez dias, 4m² de pastilhas brancas. ponto final. mas nesses dez dias, passamos a usar o exíguo banheirinho. chuveiro elétrico, toalha fora do banheiro para não molhá-la, só uma pessoa dentro do pequeno espaço de cada vez. e no primeiro banho o joão começou a chorar. disse que aquilo era frio, horrível. eu comecei a rir. como nos acostumamos a tudo e não damos conta do que é diferente! depois contei a história da reclamação dele no escritório, e todos foram às gargalhadas. é claro que meu filho já tomou zilhões de banhos num chuveiro elétrico, mas isso nas férias, na casa de praia do avó, na bahia. nunca em casa. e em casa não conseguimos fazer algo diferente. tudo tem de ser sempre igual. por isso nos desesperamos se o gás acaba, se falta luz, se o sin...

acabei me distraindo

Imagem
é engraçado como algumas pessoas perdem importância nas nossas vidas, enquanto outras ganham. eu estava andando pela calçada quando ouvi a voz dele. ele caminhava na calçada oposta. andávamos em direções opostas também. ou seja, o encontro era inevitável. nos olhamos, eu acenei e, para o meu espanto, segui andando. isso faz valer a máxima "aproveite o momento". e ponto final. como assim eu não atravessei a rua para dar um beijo e um abraço? é que tudo na vida começa e termina, baby. ... ... sabia que precisava mexer com as mãos. por isso fui àquele encontro de mulheres que iam fazer trabalhos manuais. inventei uma desculpa: tinha de entregar as três bolas de natal que tinha confeccionado. mas como não teria nada para fazer no tal do encontro - eu já tinha aprendido a fazer as tais das bolas forradas de tecido -, levei um trabalho de ponto cruz que estava quase pronto. senti uma alegria imensa ao sentar entre mulheres que iam trabalhar com as mãos. e eis que me sent...

os bons modos das moças

ele chegou quando nós já estávamos na mesinha do bar. e então minha amiga e eu nos viramos para chamar o garçom e pedir um copo. ao que ele prontamente diz que era uma tarefa dele, o único homem sentado naquela mesa. e para ilustrar - e ele é um excelente contador de histórias -, contou como o então namorado da mãe dele deve ter dormido no sofá do quarto do hotel novaiorquino quando eles foram passar uma "lua-de-mel" naquela cidade belíssima. eles, a mãe e o namorado, tinham terminado de jantar em um restaurante, quando a mãe dele chamou o garçom. e pediu para ele dizer ao cozinheiro que o jantar estava ótimo, que ela tinha adorado a comida. o namorado, um gentleman - eu suponho -, ficou em estado de choque. e meu amigo gargalha. e conta que a mãe dele estava separada havia uns dez anos, época durante a qual vinha criando os filhos sozinha, quando conheceu o namorado que ficou furioso com a conversa dela com o garçom. e eu, que horror!, fiquei chocada com a história. e pe...

as baratinhas no boteco da esquina

há anos, vários anos, passo por aquele boteco e digo pra mim mesma: um dia venho tomar uma cerveja aqui. e eis que percorro vários quarteirões da vibrante vizinhança e não encontro nenhum bar decente aberto. é estranho, como bares abrem somente à noite nesta cidade cinza. depois de andarmos um bocado, paramos no boteco que fica a uma quadra da minha casa. minha amiga e eu, num happy hour depois de uma rápida reunião. era o meu rodízio, e eu tinha de parar o carro até as 17h, sob risco de ser multada se não o fizesse. por isso saímos andando em busca de um lugar decente para tomar uma ceva gelada. minha amiga é mais velha do que eu. leia: mais sábia. eu, louca pra ir ao banheiro, e ela já pergunta pro garçom se é preciso "pegar a chave". claro que era. e quando me encaminho ao banheiro um dos funcionários gentilmente pula na minha frente com o braço esticado para me dar a chave. isso deve ser uma das coisas mais brasileiras do mundo: a chave do banheiro das mulheres - acho q...