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os presentes de natal sob medida

as horas se arrastam. mas o pior já passou. estava exasuta, em todos os sentidos em que estar exausta se enquadra. e só por isso - podia ter uma explicação mais complexa, para não ficar me enchendo de culpa - não viajei para passar o natal com os meus pequenos filhos. fiquei tentando me lembrar de uma mãe adorável que tenha feito isso, e não me lembrei de nenhuma. então fiquei em primeiro lugar da minha lista. não de mães adoráveis, óbvio, mas de mães que estão exaustas e, por isso, decidem ficar em casa sozinhas para passar o natal. na verdade, não fiquei sozinha para passar o natal. fiquei sozinha porque o natal era agora, e eu estava impossibilitada de viajar. as crianças foram. para minha alegre surpresa, foram e estão felicíssimas. para elas, o natal consiste em ganhar presentes. para mim, consiste em outras coisas. e está sendo horrivelmente triste e encantador estar só nesses dias todos e descobrir o que são as "outras coisas". fiz uma lista de coisinhas que eu ti...

la vie en rose

a cidade estava parando. no bom sentido. as ruas quase calmas, e todas as pessoas com a cara de é-quase-natal. e então me lembrei de um amigo que fez a seguinte analogia dia desses: quando você tá apertado pra ir ao banheiro e tá quase chegando em casa, você começa a relaxar, e se algo der errado e você NÃO chegar em casa, você vai acabar fazendo xixi na calça. pois era essa a cara de todo mundo na rua hoje. a vida vai ficando mais mansa porque SABEMOS que não vamos trabalhar feito loucos pelos próximos dias. e se alguém disser que algo deu errado e que TEREMOS de trabalhar nos próximos dez dias, não vamos conseguir. delícia. o trabalho nesses dias é um esforço. mas depois vem o ócio. la vie en rose. ... tive de colocar o despertador pra me acordar. não era nada cedo, mas precisava estar no escritório às 10h, e antes disso era preciso passar no mecânico e resgatar meu pequeno carro. e enquanto ia fazendo as coisas que precisavam ser feitas - preparar o café da manhã, deixar um bilh...

desculpa, dona faz tudo

este fim de ano não será como os outros. das trocentas - e infindáveis - listas, muitas ainda existirão no próximo ano. a casa não está arrumada, nem dona faz tudo está descansada. ficou tudo de pernas por ar. não desorganizado, mas um pouco zoado. e lá vou eu explicar. mamãe precisa dormir. mamãe precisa ir ao cinema. mamãe precisa chorar. mamãe precisa ficar sozinha, em silêncio. e depois de muitas e muitas horas sozinha, mamãe precisará sair por aí de bicicleta. mamãe precisa comer pouco, beber o suficiente, e rir só se for engraçado de verdade. ... é bom passar por situações limite, quando você fica em dúvida se vai dar conta do recado. são dias de aulas intensivas de economia de energia: você só gasta o necessário. e assim foram as últimas semanas. homens bobos, crianças indóceis, verdades aparecendo enlouquecidamente dentro de mim. uma maravilha, se não doesse. mas dói. e, claro, azar o meu. a dor pode ser dividida, mas não terceirizada. e então descobri amigos preciosos, qu...

como se escreve dru?

dezembro tem cheiro bom. faltavam uns dias pro mês começar, e eu senti o cheiro bom enquanto andava numa calçada perto de casa. fiquei pensando, e não consigo explicar. só contar. ... o guto escreve no facebook que o ano foi horrível. algo como "se pudesse, gostaria de enterrar o ano que passou". aí lembrei que o pai dele morreu faz pouco, e que a mulher dele (do pai) é chatíssima. mesmo assim, não é possível "enterrar" o que aconteceu. é preciso aceitar, e eventualmente perdoar. ... ele sabe meu nome, e eu não sei o dele. ele é podre de gostoso (será que se fala assim aqui na cidade cinza?) e sempre me dá oi com entusiasmo e beijo na bochecha. hoje descobri o que ele faz para viver, e fiquei pensando que além de gentil, gostoso e bonito, o cara é legal. ... li pras crianças "a christmas carol", do charles dickens, numa versão brasileira e adaptada para crianças. perguntei se eles não achavam que a história dava medo, e eles disseram que não. a lívia...

"eu não vou chegar"

era sábado. sabia que não devia contar com a calmaria de um fim de semana, porque existem coisas que nunca são calmas em são paulo. uma delas é o trânsito sobre a ponte que me permite cruzar o rio pinheiros para seguir em direção à escola das crianças. e assim foi. em vez dos 12 minutos que eu poderia levar, para chegar a uma reunião com uma folga de 15 minutos - o mundo ideal para pessoas que não passam bem com atrasos -, demorei 45 minutos. "eu não vou chegar" era o mantra que tomou conta dos meus pensamentos. coloquei boa música, pensava em coisas boas, mas "eu não vou chegar". eu estava furiosa, e nessas horas s-e-m-p-r-e penso em sair correndo da bela e cinza são paulo. eu cheguei. e para minha surpresa, a reunião, que sempre começa pontualmente, naquela manhã de sábado estava atrasada 15 minutos. alívio. e a raiva foi-se. mas eu fiquei pensando no não chegar. um dia antes, eu fiquei sentada mais de 2 horas e meia no carro para percorrer os 20km que separam ...

à espera

(...) mas não se pode esperar um dia 100 por cento. se você conseguir 51, você ganhou. charles bukowski ... como se eu estivesse esperando alguma mensagem, uma novidade, o reaparecimento de alguém há muito sumido, não conseguia trabalhar. cheguei cedo ao escritório, e tinha muito trabalho. mas a cena era patética: eu olhava para o texto que tinha de terminar e não conseguia fazer nada. não conseguia ler, não conseguia ter ideias, não conseguia enxergar os erros.  então ia até a copa, tomava água e um pouco de café, e voltava. e lá estava o mesmo texto. respirava, anotava alguma coisa na agenda, e nada. lembrei de marcar uma consulta médica. respondi a alguns e-mails. e nada de inspiração. e assim foi o dia. sem inspiração, mas com trabalho. sorry, baby. da próxima vez, serei herdeira. por ora morro de nojo da ideia de ter alguém pagando as minhas contas. e assim sigo trabalhando para viver, como se diz. faço o que eu quero, não devo nada a ninguém. só uns pilas pro itau, que r...

a hóspede em porto alegre

acordei e fui para o cozinha esquentar água para o chá de menta da horta do velho e para o chimarrão. a louça usada no jantar de ontem jazia esculhambada por toda a enorme pia. eu não mexi em nada. quando somos visitas, temos a obrigação de não causar. e aqui na casa dela é assim: ela acha um horror deixar a louça de molho. então ficam os pratos espalhados por metros e metros de pia. jamais ligo o computador para escrever de manhã cedo. de manhã escrevo no papel. mas aqui, na casa que não é minha, nem papel tenho. então trouxe a velha e bela cadeira de balanço que era da minha avó para o jardim, coloquei a máquina sobre as coxas e cá estou escutando a música dos passarinhos e vendo o azul escândalo do céu de porto alegre. os dias têm sido maravilhosos. na sombra é fresco, no sol é quente, e na piscina é gelado. ontem minha mãe fez 70 anos. e as celebrações já tinham começado. viemos pra porto alegre três dias antes, por causa dos preços das passagens. e enquanto meu pai levava o cac...