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depois do sequestro, pinhão

shit happens. e um dia a merda acontece com você. hoje aconteceu comigo. uma coisa fina, elegante e rápida. enquanto eu estava entrando no carro, vejo um sujeito entrando do outro lado. ele falou mui rapidamente. eu devia seguir as instruções, e ele não ia mostrar a arma para não assustar o bebê. a lívia tem 9 anos. e não percebeu que o malaco era um malaco. olhei pelo espelho retrovisor e vi a carinha dela bem feliz. ela achou que eu estava dando carona para alguém. ponto. malaco ia me acalmando, me indicava o caminho e dizia que se cruzássemos com a polícia eu deveria ficar calma. aliás, ele dizia que eu devia ficar calma, e eu respondia "obrigada por me acalmar". fofo. e patológico. ah, e qualquer coisa o malaco era "o meu filho", me instruiu o próprio. ladeiras e mais ladeiras abaixo, chegamos. descemos do carro e fomos andando num belo campo de futebol. o malaco mandou que esperássemos. o malaco chefe estava chegando. quando chegou, mandou eu ...

a fotossíntese

(o texto foi escrito dois meses atrás. antes das minhas longas férias de quase 40 dias. antes de a minha mãe ir para o céu. e antes de eu saber que eu tenho um milhão de amigos com quem eu posso contar nos dias mais nublados, e nas noites mais escuras, quando não enxergo nenhuma estrela no céu) o dia tava lindo. e a dor era tanta que eu não conseguia andar sem senti-la. interrompi minha caminhada e fui pra casa. tinha de trabalhar, assinar um documento no cartório, comprar frutas. e enquanto ia fazendo todas as mil coisas a fazer, lembrei que há muitos e muitos dias vinha adiando minha ida ao incrível dr. kong. liguei, mas ninguém atendeu. um frio percorreu a minha espinha, e eu fiquei morrendo de medo que ele estivesse na china passando longas férias ou, pior, que não estivesse mais atendendo. e eu teria mais uma dor, a do coração, para juntar-se às tantas outras dores que eu tenho hospedado em partes diversas de mim. ia fazendo as coisas devagar, porque as costas doíam e o corpo e...

enfim, lenta

meu deus. finalmente consegui. com muito esforço, é verdade, porque tenho a impressão de que na vida tudo custa um pouco de esforço - seja interno, da alma, seja externo, do corpo. mas um pouco. eu estava no supermercado fazendo compras para receber quatro vietnamitas na minha casa por uma tarde. já tinha pensado no que seria feito para o almoço, para o lanche da tarde e para o jantar. mas acabei deixando para comprar algumas coisas na última hora. tão última que quando olhei no relógio faltavam dez minutos para eu estar no ponto de encontro onde pegaria as três crianças e a/o líder do grupo, que tinham vindo à bananalândia para um acampamento do CISV. respirei fundo e falei para mim mesma: "calma, nega". terminei as compras, paguei e saí do supermercado tentando fazer cara de tá tudo bem. não parei na feira. cheguei em casa falando alto, nalva cheguei e já estou saindo porque estou atrasada. no carro, no meio do caminho, a lucy, responsável pela "entrega" do gru...

ogrices

a gente não se fala regularmente. mas ela é a única pessoa da família do pai dos meus filhos com quem mantenho contato. manter contato seria relegar nossos encontros a meras formalidades. e isso seria mentira. mas temos em comum uma sogra, já que ela foi casada com um dos irmãos do meu ex-marido. mais de uma década se passou, e sempre temos o telefone da outra para mui esporádicos telefonemas e mui alegres encontros. a lana me ligou um ou dois dias depois do dia das mães. demos risada ao telefone. ela ligava para dizer que a casa nova já tem telefone, e queria me passar o número. e conversando sobre os filhos, viagens e tals ela me conta que ficou muito brava com o pedro, que não tinha dado nada de presente de dia das mães para ela. a enquadrada foi curta e grossa: ela disse a ele que ele devia dar conta de dar um presente, um botão de rosa que fosse, em algumas datas especiais para ela, como aniversário e dia das mães. podia guardar algum dinheiro pra isso, ou comprar algo barato, ...

por que você veio aqui?

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o grupo tinha umas dez pessoas. e cada um tinha de dizer por que estava ali. o que falávamos ali não devia sair daquela sala. por isso só vou escrever o que eu disse. era um curso de meditação, e havia principiantes e iniciados. eu respondi que estava ali porque queria andar e fazer tudo mais devagar. queria me tornar uma pessoa mais lenta. ninguém disse isso. cada um tinha um motivo, e me pareceu que cada um falou de coisas muito íntimas. sobre a minha intenção de mudar a velocidade, isso não me parece íntimo. nem profundo. ao contrário. me parece bem raso, como um pires. o curso terminou já faz uns meses, e as oito ou nove aulas que tivemos mudaram a minha vida. já escrevi sobre isso, e tenho falado sobre isso à exaustão. na prática, tudo segue igual, mas eu enxergo tudo diferente. e quando a gente começa a ter umas ideias diferentes das que tínhamos, parece que o universo se encarrega de nos mostrar outras coisas, e assim, como uma bola de neve que dizem que vai aumentando confo...

e o oscar vai para...

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cheguei em casa um pouco depois das 7pm. minha filha tomava banho, meu filho tinha o i-pad no colo. minha empregada querida tinha a mesma cara de sempre - e por isso os baianos estão à frente de toda a população ocidental. minha barriga doía. era uma dor estranha, como se eu estivesse para parir a qualquer momento. eu vim dirigindo do escritório para casa respirando para sentir de onde vinha essa sensação estranhíssima. a dor tomava conta do abdômen e da região onde eu tenho a cicatriz da cesárea. tchau, nalva. lívia, coloca o pijama, vai jantar e já pra cama! joão, quantas lições você fez? ... pausa para meditação. ... é uma piada. eu queria jantar e dormir. mas meu filho tinha lições. muitas. ele trocou de escola este ano. ele e o pai escolheram uma escola "normal". coloco com aspas porque o joão estudava numa escola de pedagogia waldorf, e todos os dias dizia que não gostava da escola. foi um teste de aceitação. ou como diz o mestre, "você foi traída...

cansa

quebrei meu recorde histórico de não escrever - e não me importar com isso - neste blog. tem vez que a vida parece nos deixar mais ocupados, e aí nos concentramos no que é essencial. e eu tenho me concentrado nas tarefas mudanas de começo de ano. filhos na escola, lição dos filhos, horários da natação e do piano e do inglês e da terapia dos filhos. diz uma das minhas mestras que deus tá o fardo que cada um consegue carregar. eu acredito nisso desde a primeira vez que ela me disse isso, uns anos atrás, mas eu sempre fico com um pouco de dúvida. por que às vezes o fardo parece tão pesado que a gente tem certeza de que vai cair de boca no chão? aí vem a falta de ar - uma visita que não é bem-vinda mas que se nega a ir embora -, a azia, a insônia. e a tristeza, que me presenteia com a certeza de que estou andando pra frente, me equilibrando com esforço e tropeçando dia sim, outro também. ... ontem fiquei pensando no meu medo. saí de casa tarde da noite para os meus pacatos parâmetros. ...