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perder-se

dizem que devemos todos os dias fazer novos caminhos, ou fazer as coisas de todo dia de um jeito diferente. essas mesmas pessoas defendem que assim nosso cérebro é exercitado. pois eu acho que mais do que o cérebro, a alma é exercitada. e é por isso que não saber onde estamos é bom. hoje fomos andando pra praia e pegamos o caminho - dois quarteirões - errado. seguimos andando e atravessamos uma área verde onde florzinhas ordinárias que crescem no meio do mato nos fizeram parar. eram lindas, delicadas e inéditas pros nossos olhos. depois nos deparamos com flores maiores e igualmente lindas. e de um colorido forte impressionante. a lívia sugeriu que voltássemos mais tarde pelo mesmo caminho para fotografar todas aquelas flores. mas não voltamos, porque o mar estava maravilhoso, o vento estava fresco e fomos ficando na praia. a ideia da delícia de se perder surgiu quando tive de aprender novos caminhos nesses dias de curtas férias em florianópolis. conheci uma praia que não conhecia, ...

sozinha,

fiz uma pequena escavação na areia fofa, e juntei num bolinho a areia, para que servisse de almofada para eu sentar e meditar. a praia tava ficando cheia, apesar do dia cinza e com muito, muito vento. cheia quer dizer com mais gente do que eu tinha encontrado duas horas antes, quando cheguei na beira do mar para andar até a ponta da praia. fiquei quase com vergonha de meditar num lugar público, mas acabei fechando os olhos e ficando quieta. o corpo parecia balançar suavemente com o vento. mas da cintura pra baixo eu estava sentada e imóvel. eu sempre tenho um pouco de vergonha de fazer algumas coisas em público por poder parecer ridícula. aprendi com a minha mãe que temos de sempre olhar para ver "se os outros estão olhando o que estamos fazendo". mas agora, passados quase 44 anos, estou aprendendo a NÃO olhar para os outros porque afinal de contas a vida deles é deles e a minha é minha. é muito difícil aprender coisas diferentes das que aprendemos desde pequenos. vim pra...

o pior e o melhor

tanto tempo sem escrever que fico com medo de não saber mais escrever. ou pior: fico com medo de não voltar a escrever. parece que tem tempos na nossa vida em que olhamos tanto mas tanto pra dentro da gente que fica difícil olhar pra fora. como se só existisse o pra dentro. e esse é o momento. e então, sem sono por conta de um filho que é da pá virada, pensei em como o pior da vida é ter de dar conta sozinha. e como isso também é o melhor. não estou falando de dar conta de algo específico. é um pouco pior. ah ah ah. estou falando de dar conta de tudo. sem perguntar pra ninguém, sem pedir pra ninguém resolver e sem culpar ninguém. e é bem nessa hora, em que fica CLARO que você precisa tomar as rédeas e escolher o caminho a seguir, que parece que não vai dar. se eu fosse contar quanto tempo tenho ficado em silêncio acho que eu bateria alguns monges que vivem isolados. não foi uma escolha minha, foi uma imposição de um dia depois do outro. e assim tem sido. às vezes morro de ódio do...

o claustro

"saber ficar satisfeito é ter um tesouro na palma da mão." provérbio tibetano  ... eu estava cortando um pedaço de tofu em quadradinhos, e senti uma alegria muito grande: minha sopa ia ter tofu! aí me dei conta de que quando uma pessoa acha TOFU o ingrediente mais interessante do seu jantar, hello, esta pessoa está em sofrimento. bem, eu estava. era o último jantar do meu jejum, que durou oito dias, contando o dia zero, quando comi somente frutas e verduras. para dar conta, me organizei: faria o jejum na primeira e única semana do ano sem filhos. e a preparação foi longa. em junho, quando a minha médica receitou isso, eu disse pra ela: "nunca". passadas as férias de julho, achei que podia pensar no assunto. e tanto pensei que consenti em fazer a tal dieta detox. além de estar sozinha em casa, organizei minha agenda para que a minha presença física no escritório não fosse necessária. e deu certo. apesar de ter trabalhado muitíssimo, não saí de casa. acordava c...

depois do sequestro, pinhão

shit happens. e um dia a merda acontece com você. hoje aconteceu comigo. uma coisa fina, elegante e rápida. enquanto eu estava entrando no carro, vejo um sujeito entrando do outro lado. ele falou mui rapidamente. eu devia seguir as instruções, e ele não ia mostrar a arma para não assustar o bebê. a lívia tem 9 anos. e não percebeu que o malaco era um malaco. olhei pelo espelho retrovisor e vi a carinha dela bem feliz. ela achou que eu estava dando carona para alguém. ponto. malaco ia me acalmando, me indicava o caminho e dizia que se cruzássemos com a polícia eu deveria ficar calma. aliás, ele dizia que eu devia ficar calma, e eu respondia "obrigada por me acalmar". fofo. e patológico. ah, e qualquer coisa o malaco era "o meu filho", me instruiu o próprio. ladeiras e mais ladeiras abaixo, chegamos. descemos do carro e fomos andando num belo campo de futebol. o malaco mandou que esperássemos. o malaco chefe estava chegando. quando chegou, mandou eu ...

a fotossíntese

(o texto foi escrito dois meses atrás. antes das minhas longas férias de quase 40 dias. antes de a minha mãe ir para o céu. e antes de eu saber que eu tenho um milhão de amigos com quem eu posso contar nos dias mais nublados, e nas noites mais escuras, quando não enxergo nenhuma estrela no céu) o dia tava lindo. e a dor era tanta que eu não conseguia andar sem senti-la. interrompi minha caminhada e fui pra casa. tinha de trabalhar, assinar um documento no cartório, comprar frutas. e enquanto ia fazendo todas as mil coisas a fazer, lembrei que há muitos e muitos dias vinha adiando minha ida ao incrível dr. kong. liguei, mas ninguém atendeu. um frio percorreu a minha espinha, e eu fiquei morrendo de medo que ele estivesse na china passando longas férias ou, pior, que não estivesse mais atendendo. e eu teria mais uma dor, a do coração, para juntar-se às tantas outras dores que eu tenho hospedado em partes diversas de mim. ia fazendo as coisas devagar, porque as costas doíam e o corpo e...

enfim, lenta

meu deus. finalmente consegui. com muito esforço, é verdade, porque tenho a impressão de que na vida tudo custa um pouco de esforço - seja interno, da alma, seja externo, do corpo. mas um pouco. eu estava no supermercado fazendo compras para receber quatro vietnamitas na minha casa por uma tarde. já tinha pensado no que seria feito para o almoço, para o lanche da tarde e para o jantar. mas acabei deixando para comprar algumas coisas na última hora. tão última que quando olhei no relógio faltavam dez minutos para eu estar no ponto de encontro onde pegaria as três crianças e a/o líder do grupo, que tinham vindo à bananalândia para um acampamento do CISV. respirei fundo e falei para mim mesma: "calma, nega". terminei as compras, paguei e saí do supermercado tentando fazer cara de tá tudo bem. não parei na feira. cheguei em casa falando alto, nalva cheguei e já estou saindo porque estou atrasada. no carro, no meio do caminho, a lucy, responsável pela "entrega" do gru...