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o dia dos milagres

abri os olhos e vi que tinha luz. fiquei olhando pro pequeno corredor e pensei que alguém estivesse acordado na sala, e com a luz acesa. mas a luz que eu enxergava da minha cama não era uma luz de lâmpada, era uma luz do dia. olhei no celular e vi 6:18. vi também na tela escrito "alarme". e percebi que tinha perdido a hora. eu acordo todos os dias às 5h. isso já faz alguns anos - começou quando meus filhos foram estudar na roça, que é como eu chamo carinhosamente o bairro onde fica a escola deles. também conhecido como o "o fim do mundo". pulei da cama o mais lentamente que pude e fui chamar as crianças com o máximo de doçura que consegui. eu estava saindo da cama na hora em que costumamos sair de casa. e um filminho passou pela minha cabeça - lembrei das milhares de vezes que acordei e tive de sair correndo. tipo a minha vida inteira, desde a infância até uns 30 anos (?). enquanto a água esquentava na chaleira, tomei um banho o menos loucamente que pude. perceb...

sobre mulheres que não param

ela era do tipo que nunca ficava sentada. nunca. a impressão que eu tinha, conforme eu ia crescendo, era que ela tinha alguma coisa na bunda. era isso o que diziam pra nós, crianças, quando um coleguinha não ficava sentado na classe: "fulano tem um furúnculo", ou "fulano tem um percevejo no bumbum" - neste caso, acho que se referiam ao objeto que usamos para fixar folhas num quadro de cortiça. e eu achava que era isso o que a minha mãe tinha - alguma coisa na bunda, que a impedia de ficar sentada. muitos e muitos anos depois é que eu fui entender por que uma pessoa não consegue ficar sentada. nós estávamos hospedando duas meninas de 11 anos num fim de semana. faz parte da política do Cisv, que promove acampamentos de crianças e adolescentes ao redor do mundo: famílias hospedam seu filho quando ele viaja, e a contrapartida é você hospedar crianças - gringas ou brasileiras - quando os acampamentos ocorrem no brasil. dessa vez, mia, americana, e filippa, sueca, passa...

perder-se

dizem que devemos todos os dias fazer novos caminhos, ou fazer as coisas de todo dia de um jeito diferente. essas mesmas pessoas defendem que assim nosso cérebro é exercitado. pois eu acho que mais do que o cérebro, a alma é exercitada. e é por isso que não saber onde estamos é bom. hoje fomos andando pra praia e pegamos o caminho - dois quarteirões - errado. seguimos andando e atravessamos uma área verde onde florzinhas ordinárias que crescem no meio do mato nos fizeram parar. eram lindas, delicadas e inéditas pros nossos olhos. depois nos deparamos com flores maiores e igualmente lindas. e de um colorido forte impressionante. a lívia sugeriu que voltássemos mais tarde pelo mesmo caminho para fotografar todas aquelas flores. mas não voltamos, porque o mar estava maravilhoso, o vento estava fresco e fomos ficando na praia. a ideia da delícia de se perder surgiu quando tive de aprender novos caminhos nesses dias de curtas férias em florianópolis. conheci uma praia que não conhecia, ...

sozinha,

fiz uma pequena escavação na areia fofa, e juntei num bolinho a areia, para que servisse de almofada para eu sentar e meditar. a praia tava ficando cheia, apesar do dia cinza e com muito, muito vento. cheia quer dizer com mais gente do que eu tinha encontrado duas horas antes, quando cheguei na beira do mar para andar até a ponta da praia. fiquei quase com vergonha de meditar num lugar público, mas acabei fechando os olhos e ficando quieta. o corpo parecia balançar suavemente com o vento. mas da cintura pra baixo eu estava sentada e imóvel. eu sempre tenho um pouco de vergonha de fazer algumas coisas em público por poder parecer ridícula. aprendi com a minha mãe que temos de sempre olhar para ver "se os outros estão olhando o que estamos fazendo". mas agora, passados quase 44 anos, estou aprendendo a NÃO olhar para os outros porque afinal de contas a vida deles é deles e a minha é minha. é muito difícil aprender coisas diferentes das que aprendemos desde pequenos. vim pra...

o pior e o melhor

tanto tempo sem escrever que fico com medo de não saber mais escrever. ou pior: fico com medo de não voltar a escrever. parece que tem tempos na nossa vida em que olhamos tanto mas tanto pra dentro da gente que fica difícil olhar pra fora. como se só existisse o pra dentro. e esse é o momento. e então, sem sono por conta de um filho que é da pá virada, pensei em como o pior da vida é ter de dar conta sozinha. e como isso também é o melhor. não estou falando de dar conta de algo específico. é um pouco pior. ah ah ah. estou falando de dar conta de tudo. sem perguntar pra ninguém, sem pedir pra ninguém resolver e sem culpar ninguém. e é bem nessa hora, em que fica CLARO que você precisa tomar as rédeas e escolher o caminho a seguir, que parece que não vai dar. se eu fosse contar quanto tempo tenho ficado em silêncio acho que eu bateria alguns monges que vivem isolados. não foi uma escolha minha, foi uma imposição de um dia depois do outro. e assim tem sido. às vezes morro de ódio do...

o claustro

"saber ficar satisfeito é ter um tesouro na palma da mão." provérbio tibetano  ... eu estava cortando um pedaço de tofu em quadradinhos, e senti uma alegria muito grande: minha sopa ia ter tofu! aí me dei conta de que quando uma pessoa acha TOFU o ingrediente mais interessante do seu jantar, hello, esta pessoa está em sofrimento. bem, eu estava. era o último jantar do meu jejum, que durou oito dias, contando o dia zero, quando comi somente frutas e verduras. para dar conta, me organizei: faria o jejum na primeira e única semana do ano sem filhos. e a preparação foi longa. em junho, quando a minha médica receitou isso, eu disse pra ela: "nunca". passadas as férias de julho, achei que podia pensar no assunto. e tanto pensei que consenti em fazer a tal dieta detox. além de estar sozinha em casa, organizei minha agenda para que a minha presença física no escritório não fosse necessária. e deu certo. apesar de ter trabalhado muitíssimo, não saí de casa. acordava c...

depois do sequestro, pinhão

shit happens. e um dia a merda acontece com você. hoje aconteceu comigo. uma coisa fina, elegante e rápida. enquanto eu estava entrando no carro, vejo um sujeito entrando do outro lado. ele falou mui rapidamente. eu devia seguir as instruções, e ele não ia mostrar a arma para não assustar o bebê. a lívia tem 9 anos. e não percebeu que o malaco era um malaco. olhei pelo espelho retrovisor e vi a carinha dela bem feliz. ela achou que eu estava dando carona para alguém. ponto. malaco ia me acalmando, me indicava o caminho e dizia que se cruzássemos com a polícia eu deveria ficar calma. aliás, ele dizia que eu devia ficar calma, e eu respondia "obrigada por me acalmar". fofo. e patológico. ah, e qualquer coisa o malaco era "o meu filho", me instruiu o próprio. ladeiras e mais ladeiras abaixo, chegamos. descemos do carro e fomos andando num belo campo de futebol. o malaco mandou que esperássemos. o malaco chefe estava chegando. quando chegou, mandou eu ...