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bom dia, 2018

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era uma cidade diferente. de manhã, nem tão cedo assim, podia-se escutar os passarinhos. muitos deles, cantando com a alegria que é típica de todo canto de passarinho. as ruas vazias, muito vazias, como se eu estivesse em uma cidade que foi abandonada pelos seus moradores. tive a impressão de que os passos das pessoas que andavam com seus cachorros também eram diferentes. eram passos lentos, sem pressa. passos de quem anda não para chegar a algum lugar, mas para andar. fiz um caminho mais curto. e cruzei com somente três guardinhas de rua. trocamos "feliz ano novo" com gentileza. sem alegria nem tristeza. na pracinha, sempre tomada de crianças, babás, pais e mães, somente três crianças eram embaladas nos balanços - por três adultos que faziam o movimento ritmado de empurrar seus filhos e esperar que o balanço voltasse para empurrar novamente as crianças. parecia uma coreografia. ao redor da praça, ninguém andava além de mim e de um velho não tão velho assim, mas com idad...

o ano que acaba e a minha promessa de NÃO viajar

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a chuva começou devagar. eu estava sentada não muito perto da janela, e não conseguia ver se caíam pingos ou se eu estava imaginando que estava chovendo. mas em poucos minutos a chuva começou a cair com força. dava pra ver a cortina de água que se formava no ar e que agora eu podia enxergar perfeitamente de onde estava. eu estava meditando. e chorando. andamos mais ou menos 2.500 km nos últimos dias. foi um pedido dos meus filhos: passar o natal com o avô que mora em porto alegre e com a prima que morava em florianópolis, mas faz duas semanas mudou-se para porto alegre. eu sempre tenho vontade de ficar em casa no natal. é nessa época que a cinza e barulhenta são paulo fica calma, serena e silenciosa. é o melhor de são paulo. mas meus filhos nunca gostam da minha ideia. e todo ano pedem para passar o natal com o pedaço da família que mora em porto alegre. eu fui e voltei bem concentrada. não queria passar a semana feito um papagaio não criativo dizendo "eu não queria vir pra cá...

Como sobreviver ao mês de dezembro em 17 lições

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Eu moro num bairro muito movimentado de São Paulo. Não é o centro da cidade, mas é como se fosse. De segunda a sexta, pessoas andam com seus crachás pendurados no pescoço, normalmente em grupos que variam de tamanho – de 2 a 10 pessoas -, em passos rápidos, com caras compenetradas. Ocupam a calçada animadamente, e andar pela vizinhança perto da hora do almoço é quase uma brincadeira de ultrapassagem e redução de marcha e aceleração e ops, não dá pra passar de novo. Caminhões param em todos os lugares onde é proibido parar e estacionar para descarregar gelo, engradados de cerveja, caixas com hambúrgueres congelados e caixotes de madeira com verduras. Mas nos fins de semana a vizinhança se transforma. Pessoas de todas as idades, cores e felicidades andam pelas calçadas, de mãos dadas ou empurrando carrinhos de bebê ou segurando coleiras ou discutindo ou dando risada. O bairro é cheio, bombado, metido a besta, feliz. Mas nesses dias de dezembro, o bairro fica mais cheio, mais bombado, ...

sobre a difícil arte do deixar ir

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o glamour* não anda sempre ao lado da gente. e assim há os dias coloridos, ensolarados, mas há também os dias nublados, frios e com neblina. não estou falando das condições meteorológicas, mas de como nos sentimos. o sol indo dormir  aí tem as fases, que são feitas de vários dias. as fases alegres, nítidas, leves, e as fases densas, cinzas, que não têm nenhuma alegria e nenhum glamour. assim é que é. não só com desempregados, mas com todo mundo. como eu estou desempregada, tenho a impressão de que os meus dias cinzas são mais escuros que os dias cinzas dos outros. o que é uma enorme bobagem. o refrão belíssimo de "divino maravilhoso" grudou na minha cabeça dia desses, e eu ia cantando "é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". eu não lembrava de nenhuma outra palavra da música, só essas. às vezes parece que a força acabou. tipo quando termina a gasolina do carro no meio da estrada, e você está andando feliz da vida a 100km/h, 120...

quase 12 anos atrás: por que a simplicidade é complicada?

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um dia depois de escrever sobre a minha vida com menos coisas e mais alegrias , encontro o texto que segue nos arquivos do meu computador. escrevi isso quase 12 anos atrás, no dia 31 de março de 2006. eu tinha acabo de me separar. meu filho faria 4 anos dali a 10 dias. e minha filha ia fazer 1 ano dali a 15 dias. ... Quando resolvi me separar, para meu espanto, eu não tinha nenhum papelzinho com prós e contras, não era corna, não estava apaixonada. Foi simples. A decisão estava tomada e eu tinha de segui-la. Porque sei que é a decisão mais lúcida da minha vida. E ela, a decisão, apareceu para mim. Não foi milagre, não tive nenhuma visão. Simplesmente foi assim. Agora só fico pensando em como casei com uma pessoa tão distante. Mas foi muito amor, tanto amor que nasceram dois filhos. Fortes, maravilhosos, e que são minhas estrelas, hoje mais do que nunca. Tava pensando que a dor de uma separação, mesmo desejada, é tanta, que tenho de escrever pra aguentar. Mas quem vai querer...

nunca me senti tão rica

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eu estou há dias pensando nisso. pensando em escrever sobre a minha riqueza. estou dura de marré marré marré. desempregada desde março. fazendo um trabalho aqui, outro ali, mas nada que pague todas as contas da minha pequena família. e nesses meses de busca por um emprego, por frilas, por equilíbrio, por alegria para lidar com a vida familiar, eu tenho me sentido muito rica. parece irônico, e eu sei disso.  cresci numa família endinheirada. hoje entendo mais do que entendia quando era criança. para as crianças, a menos que você seja criada por monstros, o dinheiro nunca é a parte mais importante da vida. e eu sabia que morava numa casa grande, que tinha um guarda noturno que nenhum amigo tinha e que podia ser sequestrada, segundo a minha mãe. mas eu não tinha noção da realidade como ela era.  hoje eu tenho.  minha família endinheirada se foi. casei duas vezes e nunca herdei nada dos casamentos. sempre achei uma barbaridade uma mulher com dois braços, duas pernas e um c...

Só sendo uma santa

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Parte do cansaço de criar filhos vem da minha loucura. Após anos jurando que não serei como meus pais, dia desses, conversando com o meu filho, escutei sair da MINHA boca que eu, na idade dele, “corria, fazia ginástica, dançava num grupo da escola” e não sei o quê mais. Assim que terminei a frase, morri de vergonha. O que é que os meus filhos têm a ver com o que eu fazia ou não fazia na idade deles? E o que eles têm a ver com o que eu quero que eles façam? Toda a teoria de “boas práticas” no lar escoa pelo ralo. E eu fico pensando por que é tão tentador repetir as frases bestas que eu ouvia quando eu era criança e que eu achava tão abomináveis. Falar que aceitamos os filhos como são, uns CDFs, outros folgados, uns comilões, outros anêmicos, uns extrovertidos, outros quietinhos, uns fortes e outros nem tanto, é dureza. Aí vem mais dureza: depois de aceitá-los como são, ver e perceber que eles não pensam como nós, não agem como nós, não vivem como nós. Socorro. E é s...