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a quarentena e a dor de barriga

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tenho repetido que não tenho medo do que está acontecendo. mas é mentira. eu tenho. ... eu sinto dor de barriga. igual à dor que eu sentia quando eu era criança e não me sentia à vontade com algo, como ir dormir na casa da minha prima, cuja mãe falava alto e dizia muitos palavrões, o que na época eu achava muito assustador. todas as sensações que eu tenho sentido, aliás, são infantis. sinto pouca fome, mas muita vontade de comer, tipo criança em frente à mesa do aniversário olhando para os brigadeiros e querendo muito pegar alguns, enquanto adultos dizem com uma voz insuportável que os brigadeiros devem ser comidos depois de cantar o parabéns - e a nossa vontade de pegar o brigadeira vai aumentando vertiginosamente. também sinto raiva de ter de me adaptar ao que temos para o momento. não posso mais entrar no lugar em que compro verduras, porque os donos do pedaço concluíram que pessoas, mesmo que poucas (o resto fica esperando a sua vez na calçada), escolhendo suas alfaces é algo q...

quatro jeitos muito fáceis de sentir alegria em meio ao caos

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costumamos querer o que não temos. as frases gastas pra expressar isso são inúmeras. sim, tem a grama do vizinho, só pra dar um exemplo. e, como crianças mimadas, gostamos de escolher o que vamos fazer. estamos todos em casa. e isso foi uma ordem. ficar em casa é bom, repousante, mas se for uma obrigação, não achamos graça. feito crianças mimadas, reclamamos, bufamos, temos a nossa ansiedade elevada, numa escala de 0 a 100, a 145, em média. eu ainda não me joguei no chão para bater a cabeça, imitando crianças em ataque histérico para conseguir o que querem com os pais, o que pode ser desde comer uma bala antes do almoço até dormir depois da hora combinada, passando por tentativas de não tomar o banho diário ou ir pra cama pulando a etapa de escovar os dentes. o nome disso é chilique. quem dá chilique ou tem menos de 8 anos ou é maluco. mas agora, em época de quarentena, podemos todos dar chiliques. estamos fechados em casa. e ninguém vai ver. ora ora, não tem problema. mas se não pre...

o que fazer para não 'sofrer dos nervos' no claustro

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quando eu era criança, havia muitos adultos que sofriam dos nervos. assim é que se referiam a um diagnóstico genérico quando falavam de alguém que tinha essa tal doença, 'dos nervos'. fiquei pensando nessa forma generalizada de se referir a pessoas que, imagino, ficavam mais nervosas do que os outros. e hoje, passada a primeira semana em que filhos começaram a ficar em casa em pleno mês de março por conta de uma pandemia, imagino que muitos de nós seriam, na década de 70, diagnosticados com a doença dos nervos. gostamos de reclamar, nos acostumamos a reclamar e seguimos reclamando. agora, quando nos foi imposto o claustro, reclamamos mais ainda. mas eu queria poder deixar de reclamar e de integrar o grupo das pessoas que sofrem dos nervos e passar para o grupo dos que aproveitam o momento. porque isso é o que temos pra hoje. como? 1 - dormindo mais mesmo que sigamos trabalhando, economizamos o tempo dos deslocamentos de ir e vir. luxo. dormir um pouco mais cedo, acordar um...

os sábados, o coronavírus e o bolo de limão

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eu adoro sábados. mesmo trabalhando em casa todos os dias, os sábados são dias diferentes dos outros. não tem despertador pra acordar ninguém, e todos os três moradores da casa dormem até o sono terminar. e apesar de eu ficar em casa todos os sete dias da semana, aos sábados o ritmo é outro. não há escola, não há horários, não há emails para responder e às vezes passo o dia todo sem receber uma única mensagem de whatsapp. hoje não foi diferente. acordei quando ainda estava escuro. vim pra sala fazer minhas práticas de mindfulness. fui pra cozinha tomar meu café da manhã. passei roupa e acabo de colocar no forno um bolo de limão. mas entre uma atividade e outra, resolvi dar uma olhada nas notícias. uma amiga faria um bazar na casa dela no domingo, e cancelou. e outra amiga viria para são paulo para participar de uma feira no museu da casa brasileira, e eu queria saber se a feira iria acontecer. não, a feira foi cancelada. e soube que as escolas municipais e estaduais vão parar a ...

andy puddicombe e os 10 minutos sem fazer nada

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andy puddicombe, além de ter uma cara engraçada e de ser um dos criadores do headspace  (um aplicativo que traz meditações guiadas e cuja missão é "levar mais saúde e felicidade para o mundo"), fez um TED Talk alguns anos atrás que é muito, muito bom. foi uma palestra em Londres, cujo título em inglês é "all it takes is 10 mindful minutes" , algo como "tudo o que é preciso são 10 minutos atentos". andy fala da importância de não fazer nada. o que é diferente de deitar no sofá para ver TV, tomar um drink num bar ou conversar com um amigo no telefone. não fazer nada quer dizer não fazer nada. mas é tão distante que a gente confunde. como assim não fazer nada? perder tempo assim? na verdade, quando não fazemos nada, a gente ganha tempo, em vez de perdê-lo. sem não paramos, corremos o risco de cair esta semana terminei de ler o meu livro de prosa, sozinha é o dobro . depois do lançamento, no fim do ano passado, eu ainda não tinha lido o livro (parece...

por que deixamos de lado o que importa?

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toda vez que eu vou fazer minha caminhada matinal depois de alguns dias de recesso eu me dou conta de como eu NÃO DEVERIA parar. claro que às vezes é porque estou com muito trabalho, outras porque estou fora da cidade, e vez ou outra porque estou exausta e/ou doente. as desculpas são sempre muito convincentes. mas não vou escrever sobre a alegria das práticas esportivas. o que me intrigou muitíssimo dia desses, durante uma caminhada, foi como eu tenho deixado de lado algumas coisas que eu considero muito importantes. é por isso que tem gente que tem um dia da semana para jantar com amigos. fica da agenda o compromisso, tipo "toda quinta-feira está ocupada", e a pessoa não marca outras coisas e de fato encontra seus amigos. eu não tenho essa agenda, mas pretendo corrigir isso. eis que não sei por que fui dar uma olhada na minha estante de livros e desencavei um livro não muito novo, que comecei a ler. a reler, na verdade. um livro que comprei uns 20 anos atrás, quando passe...

o jabuti, a insana e o caminho do meio

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algumas pessoas são lentas. eu, não. e não, isso não é um elogio. é a constatação de uma realidade dramática. cheguei em casa com as bochechas vermelhas. eu teria uma aula pelo computador às 9h e uma reunião às 11h. e, antes disso, eu tinha de fazer compras. não tinha mais alface nem salsa nem batatas nem limões em casa. não percebi que tinha acordado no modo uau-sou-muito-louca-e-vou-fazer-muitas-coisas-hoje. passava das 5h30 quando acordei. diferentemente dos três últimos dias, desde que as aulas começaram, eu acordava com barulhos de um dos estudantes que mora aqui. chuveiro sendo ligado, portas sendo fechadas, uma pessoa andando firme sobre o chão de madeira. mas hoje, não. ninguém tinha acordado ainda. o exuberante alecrim da feira depois da rotina de quem está sofrendo de dor de garganta - gargarejo com água morna e sal, própolis e tals -, comecei a fazer a barra da bermuda da minha filha, cuja intenção era transformá-la num short. depois cerzi uma blusa de malha com per...