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carta para mim

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e se eu me tratasse bem? não como lixo mas do jeito que adultos amorosos tratam as crianças? e se ao me olhar no espelho eu jogasse fora minhas concepções tortas de mim mesma? não, isso não é piegas isso é curativo, reconfortante e pode me salvar do lixão a céu aberto em que fui jogada quando não olharam para mim nem me escutaram agora isso não tem mais importância porque entendi que eles fizeram o melhor que podiam fizeram o melhor que aprenderam com pais ocupados impacientes e medrosos quando gritam conosco aprendemos a gritar também mas quando falam olhando nos nossos olhos aprendemos a olhar os outros também olhe para você e goste de tudo é difícil mas vai te salvar porque como canta o chico até um copo vazio pode ser visto como cheio de ar comece pela casa: tire o que não gosta, livros que você nunca vai ler sapatos que machucam seus pés calças apertadas e quadros que não trazem alegria depois vá para a mesa e coma comidas que deix...

e como se livrar da nuvem cinza? do mau humor?

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eu estava tomando café da manhã. no céu dava pra ver uma faixa cor de rosa. o dia estava começando. acendi uma vela, pra não precisar acender a luz (ou melhor, as luzes da cozinha, que parecem as de um set de TV). cortei meus cabelos curtos. estavam compridos. e os salões fechados. e a minha cabeleireira, que não mora em são paulo, sem poder vir pra cidade cinza há meses. cortamos, minha filha e eu. cada uma com uma tesoura. ficou ótimo, mas eu não olhava como tinha ficado na parte de trás - eu sabia que eu pegaria a tesoura para dar uma ajeitada. e nem foi preciso. a evelyn finalmente veio para são paulo, e oito dias depois de eu ter feito uma meleca capilar, ela terminou o corte. bem mais curto, para arrumar todas as cortadas que eu tinha feito uma semana antes. eu não me importo com cortar o cabelo. desde sempre. quando eu era pequena, minha mãe me levava num salão onde adultos assustadores cortavam meu cabelo com navalha. eu chorava. não lembro se minha mãe não via ou se via e nã...

meu deus, como não reclamar?

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um dia sem reclamar. 24 horas. ela disse que isso era impossível. eu disse então para ela tentar um turno. uma manhã, que fosse. não, não dava. uma hora? ela disse que não dava para ficar em reclamar. umas semanas depois, meu professor dá uma lição de casa mais severa do que a que eu tinha dado para as minhas alunas. duas semanas sem reclamar. 14 vezes o desafio das 24 horas. eu sou muito crente*. o que torna mais fácil seguir o que parece difícil. por acreditar, eu me jogo do trampolim SABENDO que vai ser bom para mim. não necessariamente agradável nem divertido, mas bom. aprendendo a boiar em qualquer lugar eu também sou bem humorada. não sempre, mas quase. então dei uma risada entusiasmada quando escutei meu professor dizendo " two weeks without complaining ". ele também é uma pessoa bem humorada e deu risada ao falar da lição. ele sabe o quanto seus alunos se esgoelam pra dar conta de pôr em prática os ensinamentos sábios que atentamente escutamos, na esperança ...

para de correr, menina

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na história da rosinha de espinhos, uma menina recebe um feitiço de uma bruxa má, que diz que quando ela completar 15 anos ela vai furar o dedo e vai adormecer por 100 anos. e, apesar de todos os cuidados dos pais, ela de fato fura o dedo aos 15 anos e adormece. o nome mais conhecido dessa história é bela adormecida. eu fiquei imaginando o castelo onde ela teria adormecido. tudo quieto, silencioso, sem movimento. e foi essa imagem, a de um castelo em repouso, que me veio à cabeça hoje quando saí para correr. a praça que esteve vazia por três meses estava com muitos, mas muitos cachorros e seus donos. havia babás de branco e bebês, tanto no parquinho quanto dando voltas na pequena circunferência da praça do bairro. tinha dois ou três professores de ginástica, mas isso sempre teve. mesmo quando a praça estava vazia. nas calçadas havia gente andando, correndo, bebês sendo levados em seus carrinhos, homens e mulheres andando apressados rumo ao trabalho. na grande avenida que separ...

desgrudando das melecas intrusas

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ela é jovem, linda, magérrima. mas por algum motivo que eu desconheço, sugeriu que fizéssemos uma dieta de desintoxicação. eu estava me preparando para isso havia meses. mas dietas de desintoxicação costumam ser medievais, e é preciso muita, mas muita coragem para começar. eu tinha achado uma boa desculpa. minha filha queria fazer, e aventuras medievais em dupla costumam ser mais encorajadoras do que as feitas sem companhia. li para a minha filha as duas dietas que eu tinha separado, para que escolhêssemos uma delas. a mais fácil. a ideia era ela fazer por uma semana, no máximo. eu seguiria um pouco mais. nos dois primeiros dias, eu passei muito mal, pela primeira vez em uma dieta dessas em que se come muito pasto, zero sal, zero açúcar, zero gordura e zero álcool. minha cabeça doía violentamente por algumas horas, entre o meio da tarde e o começo da noite. e no segundo dia, eu senti um enjoo que me fez lembrar as vezes em que, na estrada, indo ou voltando do trabalho, eu pensava que...

a vida solitária em dois atos

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era 2002. eu era casada e tinha acabado de dar à luz quando decidimos nos mudar para boston. meu então marido foi aceito num programa do MIT (massachusetts institute of technology). e meu filho e eu fomos de enfeite. o alessandro passava o dia na universidade, ora no MIT, ora em Harvard, porque ele podia assistir todas as aulas que quisesse em ambas as escolas. e eu passava o dia com o pequeno joão. que tinha cinco meses quando chegamos. foi uma escolha minha. na época eu tinha um trabalho que eu adorava, como editora na abril, ganhava bem e estava de licença-maternidade. claro que eu não tinha ideia do que me esperava em boston. na verdade, cambridge, a cidadezinha universitária que fica do outro lado do rio charles e que abriga tanto o MIT quanto Harvard. a mãe em tempo integral, uma coisa que eu nunca imaginei pai e filho no jardim do prédio, depois que o inverno passou eu era mãe pela primeira vez. tudo era novidade. e morar em uma cidade desconhecida, onde meu marido...

quarentena, meu amor, e o poder do UAU

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"se não estivéssemos na quarentena, você faria essa focaccia?', ela me perguntou. a ideia de fazer um pão em casa veio da minha filha. fazia anos que não assávamos um pão. isso quem fazia era a nalva, minha querida ajudante que não trabalha mais aqui em casa há alguns anos, quase quatro. eu tinha jogado no lixo uns pacotinhos de fermento biológico que eu encontrei no grande armário da cozinha na última arrumação que fiz. os fermentos estavam vencidos havia mais de dois anos. mas isso era fácil de resolver. qualquer supermercado vende fermento biológico seco. encontrei uma receita que me animou, que não levava açúcar nem leite. e fiz a primeira focaccia da minha vida. aprendi que para um bom pão deve-se usar farinha de qualidade, orgânica e fresca. e não a farinha ordinária branca comprada no supermercado. meu medo que ia dar errado foi indo embora ao longo das horas que levei para fazer a receita. são 30 minutos para o fermento borbulhar, depois duas horas para a massa cr...