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às vezes eu até converso com o motorista

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 - tá um sol lindo. amanhã vai esquentar. - é, mas hoje cedo tava 9 graus. - tem gente feliz de poder usar casacos caros para o frio que estavam no armário. - é. eu doei todos os que eu tinha quando me mudei pra cá. você é de onde? - estou aqui há muito tempo. sou de pernambuco. moro aqui há 25 anos. - eu também. sou do sul. a gente vem pra cá e nunca mais volta, né? - eu quero voltar. - eu também. - ah, se fosse pro mesmo lugar, a gente já enchia um caminhão. - meu filho fará vestibular ano que vem. minha filha ainda tem três anos de escola. - a minha está fazendo enfermagem. tem 18 anos. - o meu filho também tem 18, e também faz um técnico. mas não é enfermagem, é administração hospitalar. - o sonho da minha filha é fazer medicina. mas só se conseguir uma bolsa de 100%. - o do meu filho também. mas só se for em faculdade pública. tchau. muito obrigada. tudo de bom. - tchau.

a casa da gente e o mundo ideal que não existe

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não nos falávamos havia um tempo. mas uma amiga que vai fazer um evento numa faculdade me pediu a indicação de um jornalista , e eu sabia que ele, jornalista como eu, podia indicar alguém. foi uma troca de mensagens rápida. oi, como vai?, tudo bem e você?, as crianças em casa, sim, que coisa essa quarentena que não termina nunca. aí eu disse que estávamos cozinhando muito, e que é uma coisa maravilhosa que aquece e alegra a nossa casa. ao que ele sugeriu que eu criasse um canal no youtube com vídeos sobre o tema. não sobre cozinhar, mas sobre filhos que cozinham. e lavam a louça. e limpam banheiro.  eu fiquei com isso na cabeça por alguns dias. mas preciso de um trabalho que me remunere para pagar a escola dos meus dois filhos e comprar a nossa comida, pelo menos, e isso não acontece com canais no youtube (a menos que você seja o 1 em 1 milhão que ganha dinheiro com isso). mas depois que a vontade de gravar vídeos passou, fiquei pensando em como eu NÃO gostaria de expor a minha vid...

como é fácil perder-se no futuro

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faz uns dias que percebi que meu quarto não ficava muito iluminado quando eu acendia a luz. olhando um pouco mais atentamente, tive a impressão de que uma das lâmpadas tinha queimado. as lâmpadas ficam escondidas num vidro fosco e não dá pra ver quando uma queima. mas dá pra perceber. peguei a escada, subi e facilmente tirei o vidro - que tem um nome, mas não lembro agora. sim, eu estava certa no meu diagnóstico. peguei uma lâmpada nova, tirei a velha, parafusei a nova e um dos macacos que mora no meu cérebro e pula a maior parte do tempo entre um pensamento e outro disse "não deve ser a lâmpada, deve ter algum fio com problema, e será preciso ligar para o Denis, pra ver quando ele pode vir aqui". a metáfora dos macaquinhos é usada pela Susan Kaiser Greenland, uma professora que ensina mindfulness para crianças e para os pais das crianças. trocada a lâmpada, surpresa! meu quarto voltou a ficar iluminado. agora só faltava lavar o vidro, secá-lo e encaixá-lo de volta. limpeza...

carta para mim

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e se eu me tratasse bem? não como lixo mas do jeito que adultos amorosos tratam as crianças? e se ao me olhar no espelho eu jogasse fora minhas concepções tortas de mim mesma? não, isso não é piegas isso é curativo, reconfortante e pode me salvar do lixão a céu aberto em que fui jogada quando não olharam para mim nem me escutaram agora isso não tem mais importância porque entendi que eles fizeram o melhor que podiam fizeram o melhor que aprenderam com pais ocupados impacientes e medrosos quando gritam conosco aprendemos a gritar também mas quando falam olhando nos nossos olhos aprendemos a olhar os outros também olhe para você e goste de tudo é difícil mas vai te salvar porque como canta o chico até um copo vazio pode ser visto como cheio de ar comece pela casa: tire o que não gosta, livros que você nunca vai ler sapatos que machucam seus pés calças apertadas e quadros que não trazem alegria depois vá para a mesa e coma comidas que deix...

e como se livrar da nuvem cinza? do mau humor?

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eu estava tomando café da manhã. no céu dava pra ver uma faixa cor de rosa. o dia estava começando. acendi uma vela, pra não precisar acender a luz (ou melhor, as luzes da cozinha, que parecem as de um set de TV). cortei meus cabelos curtos. estavam compridos. e os salões fechados. e a minha cabeleireira, que não mora em são paulo, sem poder vir pra cidade cinza há meses. cortamos, minha filha e eu. cada uma com uma tesoura. ficou ótimo, mas eu não olhava como tinha ficado na parte de trás - eu sabia que eu pegaria a tesoura para dar uma ajeitada. e nem foi preciso. a evelyn finalmente veio para são paulo, e oito dias depois de eu ter feito uma meleca capilar, ela terminou o corte. bem mais curto, para arrumar todas as cortadas que eu tinha feito uma semana antes. eu não me importo com cortar o cabelo. desde sempre. quando eu era pequena, minha mãe me levava num salão onde adultos assustadores cortavam meu cabelo com navalha. eu chorava. não lembro se minha mãe não via ou se via e nã...

meu deus, como não reclamar?

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um dia sem reclamar. 24 horas. ela disse que isso era impossível. eu disse então para ela tentar um turno. uma manhã, que fosse. não, não dava. uma hora? ela disse que não dava para ficar em reclamar. umas semanas depois, meu professor dá uma lição de casa mais severa do que a que eu tinha dado para as minhas alunas. duas semanas sem reclamar. 14 vezes o desafio das 24 horas. eu sou muito crente*. o que torna mais fácil seguir o que parece difícil. por acreditar, eu me jogo do trampolim SABENDO que vai ser bom para mim. não necessariamente agradável nem divertido, mas bom. aprendendo a boiar em qualquer lugar eu também sou bem humorada. não sempre, mas quase. então dei uma risada entusiasmada quando escutei meu professor dizendo " two weeks without complaining ". ele também é uma pessoa bem humorada e deu risada ao falar da lição. ele sabe o quanto seus alunos se esgoelam pra dar conta de pôr em prática os ensinamentos sábios que atentamente escutamos, na esperança ...

para de correr, menina

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na história da rosinha de espinhos, uma menina recebe um feitiço de uma bruxa má, que diz que quando ela completar 15 anos ela vai furar o dedo e vai adormecer por 100 anos. e, apesar de todos os cuidados dos pais, ela de fato fura o dedo aos 15 anos e adormece. o nome mais conhecido dessa história é bela adormecida. eu fiquei imaginando o castelo onde ela teria adormecido. tudo quieto, silencioso, sem movimento. e foi essa imagem, a de um castelo em repouso, que me veio à cabeça hoje quando saí para correr. a praça que esteve vazia por três meses estava com muitos, mas muitos cachorros e seus donos. havia babás de branco e bebês, tanto no parquinho quanto dando voltas na pequena circunferência da praça do bairro. tinha dois ou três professores de ginástica, mas isso sempre teve. mesmo quando a praça estava vazia. nas calçadas havia gente andando, correndo, bebês sendo levados em seus carrinhos, homens e mulheres andando apressados rumo ao trabalho. na grande avenida que separ...