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focando no bom

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eu comecei a fazer uma lista das coisas boas desta quarentena-que-não-termina-nunca. é uma coisa bem pessoal, pra manter a minha sanidade e me lembrar de que há coisas BOAS acontecendo todos os dias, mesmo quando estamos sem trabalho, sem um puto tostão, e sem sair de casa. lá vai.  sem mesada para os filhos. não foi uma escolha filosófica, 'ah já que estamos na quarentena pra que ganhar mesada?'. foi uma falta de escolha. mãe sem trabalho não paga mesada. e não tem culpa mesmo assim, um dos meus filhos começou a investir na bolsa. uma lição para esta mãe, que nunca guardou dinheiro na vida o uso da máscara me ensinou que quanto mais lentamente eu respiro, menos aflitivo é minha casa ficou quente. não sei explicar muito bem os três moradores do apartamento têm cozinhado a melhor torta de limão do mundo eu voltei a fazer pão aprendi a fazer fermento, cujos ingredientes são água e farinha. sim, é verdade a qualidade da comida que comemos aumentou muito. mais tempo para fazer, mai...

a jarra de prata da mãe

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a jarra era verde. nem claro nem escuro. e era enorme. devia caber uns três litros ali dentro. era uma jarra de plástico, que custou muito pouco. por isso eu a tinha comprado. eu não gosto de jarras de plástico. nem de talher de plástico ou pratos ou copos. mas a jarra era usada quando vinham muitos amigos à minha casa. nela eu servia suco ou chá gelado. mas nos últimos tempos a jarra havia sido promovida para o uso diário. ficava sobre a mesona da cozinha, cheia de água.  esta semana, a alça, que estava trincada, descolou. pronto. a jarra de plástico podia ser aposentada.  fiquei reclamando. eu sempre reclamo quando algo que eu uso quebra. mas a minha chateação durou muito pouco. encostei uma cadeira no armário da cozinha, que vai do chão ao teto, subi nela e estiquei os meus braços o máximo que pude para pegar a jarra de prata, que estava escondida dentro de duas sacolas verdes de plástico dessas que são vendidas a oito centavos no supermercado. lavei a jarra com alegria e c...

às vezes eu até converso com o motorista

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 - tá um sol lindo. amanhã vai esquentar. - é, mas hoje cedo tava 9 graus. - tem gente feliz de poder usar casacos caros para o frio que estavam no armário. - é. eu doei todos os que eu tinha quando me mudei pra cá. você é de onde? - estou aqui há muito tempo. sou de pernambuco. moro aqui há 25 anos. - eu também. sou do sul. a gente vem pra cá e nunca mais volta, né? - eu quero voltar. - eu também. - ah, se fosse pro mesmo lugar, a gente já enchia um caminhão. - meu filho fará vestibular ano que vem. minha filha ainda tem três anos de escola. - a minha está fazendo enfermagem. tem 18 anos. - o meu filho também tem 18, e também faz um técnico. mas não é enfermagem, é administração hospitalar. - o sonho da minha filha é fazer medicina. mas só se conseguir uma bolsa de 100%. - o do meu filho também. mas só se for em faculdade pública. tchau. muito obrigada. tudo de bom. - tchau.

a casa da gente e o mundo ideal que não existe

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não nos falávamos havia um tempo. mas uma amiga que vai fazer um evento numa faculdade me pediu a indicação de um jornalista , e eu sabia que ele, jornalista como eu, podia indicar alguém. foi uma troca de mensagens rápida. oi, como vai?, tudo bem e você?, as crianças em casa, sim, que coisa essa quarentena que não termina nunca. aí eu disse que estávamos cozinhando muito, e que é uma coisa maravilhosa que aquece e alegra a nossa casa. ao que ele sugeriu que eu criasse um canal no youtube com vídeos sobre o tema. não sobre cozinhar, mas sobre filhos que cozinham. e lavam a louça. e limpam banheiro.  eu fiquei com isso na cabeça por alguns dias. mas preciso de um trabalho que me remunere para pagar a escola dos meus dois filhos e comprar a nossa comida, pelo menos, e isso não acontece com canais no youtube (a menos que você seja o 1 em 1 milhão que ganha dinheiro com isso). mas depois que a vontade de gravar vídeos passou, fiquei pensando em como eu NÃO gostaria de expor a minha vid...

como é fácil perder-se no futuro

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faz uns dias que percebi que meu quarto não ficava muito iluminado quando eu acendia a luz. olhando um pouco mais atentamente, tive a impressão de que uma das lâmpadas tinha queimado. as lâmpadas ficam escondidas num vidro fosco e não dá pra ver quando uma queima. mas dá pra perceber. peguei a escada, subi e facilmente tirei o vidro - que tem um nome, mas não lembro agora. sim, eu estava certa no meu diagnóstico. peguei uma lâmpada nova, tirei a velha, parafusei a nova e um dos macacos que mora no meu cérebro e pula a maior parte do tempo entre um pensamento e outro disse "não deve ser a lâmpada, deve ter algum fio com problema, e será preciso ligar para o Denis, pra ver quando ele pode vir aqui". a metáfora dos macaquinhos é usada pela Susan Kaiser Greenland, uma professora que ensina mindfulness para crianças e para os pais das crianças. trocada a lâmpada, surpresa! meu quarto voltou a ficar iluminado. agora só faltava lavar o vidro, secá-lo e encaixá-lo de volta. limpeza...

carta para mim

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e se eu me tratasse bem? não como lixo mas do jeito que adultos amorosos tratam as crianças? e se ao me olhar no espelho eu jogasse fora minhas concepções tortas de mim mesma? não, isso não é piegas isso é curativo, reconfortante e pode me salvar do lixão a céu aberto em que fui jogada quando não olharam para mim nem me escutaram agora isso não tem mais importância porque entendi que eles fizeram o melhor que podiam fizeram o melhor que aprenderam com pais ocupados impacientes e medrosos quando gritam conosco aprendemos a gritar também mas quando falam olhando nos nossos olhos aprendemos a olhar os outros também olhe para você e goste de tudo é difícil mas vai te salvar porque como canta o chico até um copo vazio pode ser visto como cheio de ar comece pela casa: tire o que não gosta, livros que você nunca vai ler sapatos que machucam seus pés calças apertadas e quadros que não trazem alegria depois vá para a mesa e coma comidas que deix...

e como se livrar da nuvem cinza? do mau humor?

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eu estava tomando café da manhã. no céu dava pra ver uma faixa cor de rosa. o dia estava começando. acendi uma vela, pra não precisar acender a luz (ou melhor, as luzes da cozinha, que parecem as de um set de TV). cortei meus cabelos curtos. estavam compridos. e os salões fechados. e a minha cabeleireira, que não mora em são paulo, sem poder vir pra cidade cinza há meses. cortamos, minha filha e eu. cada uma com uma tesoura. ficou ótimo, mas eu não olhava como tinha ficado na parte de trás - eu sabia que eu pegaria a tesoura para dar uma ajeitada. e nem foi preciso. a evelyn finalmente veio para são paulo, e oito dias depois de eu ter feito uma meleca capilar, ela terminou o corte. bem mais curto, para arrumar todas as cortadas que eu tinha feito uma semana antes. eu não me importo com cortar o cabelo. desde sempre. quando eu era pequena, minha mãe me levava num salão onde adultos assustadores cortavam meu cabelo com navalha. eu chorava. não lembro se minha mãe não via ou se via e nã...