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os muitos passos para chegar à simplicidade

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faz dois anos este mês que eu decidi ficar um ano sem comprar roupas . na época, a decisão me deu frio na barriga, e na minha fantasia de consumidora que tenho sido ao longo dos anos, eu ficaria sem roupas (ou sem sapatos). amigas queridas me mandaram mensagens de apoio, e colocaram à disposição seus respectivos armários. eu não podia comprar, mas podia pegar emprestado ou ganhar peças de presente. na época, eu fiz uma lista do que tinha no meu armário , e sem o menor pudor publiquei o número de cada coisa - ficaram de fora pijamas, lingerie, meias, trajes de praia e roupas de corrida.  um ano depois, eu revi meu inventário e publiquei novamente a lista , com os números de 2018 e os números de 2019. eu não só não fiquei sem roupas como estranhamente o número de algumas coisas dentro do meu armário aumentou, em vez de diminuir. eu não roubei, o que era fácil, porque eu mesma tinha criado as regras e era a juíza do jogo. mas ganhei algumas roupas e transformei outras. e os empréstimo...

não tenho do que reclamar

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muitos anos atrás, quando eu estava grávida do meu primeiro filho, eu li um livro cujo título é "o que esperar quando você está esperando". ou algo assim. escrito por umas americanas pediatras, era um calhamaço com dicas adoráveis principalmente para mulheres que, como eu, seriam mães pela primeira vez. eu lembro de muitas até hoje.  uma delas dizia que nossos filhos escutam muitos nãos. e que, por isso, deveríamos manter um ambiente que a criança pudesse explorar sem muitos nãos. exemplo clássico: mesa de centro (ou de canto) da sala tomada de bibelôs. tem gente que acha ótimo o filho nunca tocar nas corujinhas de cristal ou nos elefantinhos de louça. mas parece tão mais legal você poder meter a mão e explorar (sim, crianças metem a mão e exploram e é bom que isso aconteça, porque algo depois muda e podemos virar adultos que não exploram muito ou que não exploram nada). mas por que uma pessoa fala sobre isso? meus filhos são quase adultos. não. um é adulto, o outro é quase. ...

não te estressa, mãe

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tchau. não te estressa, mãe. ele me deu um beijo e fechou a porta.  eu estava pensando em formas de praticar a paciência. e ele veio com essa frase. ontem ligamos a TV para assistir à apuração dos votos das eleições da terra do Tio Sam. nós não assistimos TV na nossa casa. só a ligamos para ver filmes. mas ontem ligamos para ver um canal norte-americano que fazia a transmissão no YouTube. achamos engraçada a velocidade das coisas na TV. um cenário colorido, com luzes que piscam, várias câmeras que se movem e cortam pra um apresentador e depois pra um comentarista e depois pra um repórter que está em outra cidade e volta pro estúdio. as pessoas falam rapidamente, muito rapidamente. um dos apresentadores parecia ser hiperativo, porque se mexia sem parar enquanto falava, de pé, em frente a um cenário menos colorido que o outro que estava atrás de uma bancada arredondada e gigante.  era sobre as eleições que o meu filho falava quando me disse para não me estressar. e eu respondi p...

sobre a difícil arte de deixar ir - parte II

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clean machine. eu ia escrevendo essas duas palavras toda vez que organizava minha agenda. meses se passavam, e eu sempre colocava no pé da folha do meu enorme caderno: clean machine. limpar a máquina era o que eu tinha de fazer para ter somente os arquivos necessários. mas, para fazer essa faxina no meu computador, seriam necessárias muitas horas. duas tardes. talvez três. tudo o que não é urgente é mais difícil de ser feito. e deve ter sido isso o que me levou a escrever inúmeras vezes "clean machine" na minha listinha semanal de atividades.  minha máquina, essa mesma que precisava de faxina, é lerda. é nova e é lerda. até que contatei o fabricante e descobri que a máquina não fazia algumas atualizações. eu tinha de ir até uma assistência técnica. mas, para melhorar as coisas e acabar ou diminuir meu mau humor colossal, a assistência técnica fica a menos de 500 metros da minha casa.  coloquei a máquina na mochila e fui andando bem, mas bem devagar. álcool gel, medição de tem...

focando no bom

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eu comecei a fazer uma lista das coisas boas desta quarentena-que-não-termina-nunca. é uma coisa bem pessoal, pra manter a minha sanidade e me lembrar de que há coisas BOAS acontecendo todos os dias, mesmo quando estamos sem trabalho, sem um puto tostão, e sem sair de casa. lá vai.  sem mesada para os filhos. não foi uma escolha filosófica, 'ah já que estamos na quarentena pra que ganhar mesada?'. foi uma falta de escolha. mãe sem trabalho não paga mesada. e não tem culpa mesmo assim, um dos meus filhos começou a investir na bolsa. uma lição para esta mãe, que nunca guardou dinheiro na vida o uso da máscara me ensinou que quanto mais lentamente eu respiro, menos aflitivo é minha casa ficou quente. não sei explicar muito bem os três moradores do apartamento têm cozinhado a melhor torta de limão do mundo eu voltei a fazer pão aprendi a fazer fermento, cujos ingredientes são água e farinha. sim, é verdade a qualidade da comida que comemos aumentou muito. mais tempo para fazer, mai...

a jarra de prata da mãe

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a jarra era verde. nem claro nem escuro. e era enorme. devia caber uns três litros ali dentro. era uma jarra de plástico, que custou muito pouco. por isso eu a tinha comprado. eu não gosto de jarras de plástico. nem de talher de plástico ou pratos ou copos. mas a jarra era usada quando vinham muitos amigos à minha casa. nela eu servia suco ou chá gelado. mas nos últimos tempos a jarra havia sido promovida para o uso diário. ficava sobre a mesona da cozinha, cheia de água.  esta semana, a alça, que estava trincada, descolou. pronto. a jarra de plástico podia ser aposentada.  fiquei reclamando. eu sempre reclamo quando algo que eu uso quebra. mas a minha chateação durou muito pouco. encostei uma cadeira no armário da cozinha, que vai do chão ao teto, subi nela e estiquei os meus braços o máximo que pude para pegar a jarra de prata, que estava escondida dentro de duas sacolas verdes de plástico dessas que são vendidas a oito centavos no supermercado. lavei a jarra com alegria e c...

às vezes eu até converso com o motorista

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 - tá um sol lindo. amanhã vai esquentar. - é, mas hoje cedo tava 9 graus. - tem gente feliz de poder usar casacos caros para o frio que estavam no armário. - é. eu doei todos os que eu tinha quando me mudei pra cá. você é de onde? - estou aqui há muito tempo. sou de pernambuco. moro aqui há 25 anos. - eu também. sou do sul. a gente vem pra cá e nunca mais volta, né? - eu quero voltar. - eu também. - ah, se fosse pro mesmo lugar, a gente já enchia um caminhão. - meu filho fará vestibular ano que vem. minha filha ainda tem três anos de escola. - a minha está fazendo enfermagem. tem 18 anos. - o meu filho também tem 18, e também faz um técnico. mas não é enfermagem, é administração hospitalar. - o sonho da minha filha é fazer medicina. mas só se conseguir uma bolsa de 100%. - o do meu filho também. mas só se for em faculdade pública. tchau. muito obrigada. tudo de bom. - tchau.