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isso era pra ser um poema

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9h. reiniciei a máquina. e enquanto ela ia desligando e eu ia pra cozinha preparar um mate as palavras começaram a brotar do meu cérebro. hoje é domingo. acordei pouco depois das 5 e meia. desde que o meu despertador quebrou, na hora em que deito na cama para dormir eu falo pra mim mesma que vou acordar às 5 no outro dia. e acordo. nem sempre às 5, porque meu relógio interno tem lá suas questões. às vezes acordo meia hora antes. outras, meia hora depois. comprei um novo despertador, e depois de pagar por ele, o japonês que me atendia disse que consertaria o meu despertador quebrado. esses reloginhos são tão frágeis que eu jogava no lixo quando quebravam. mas desta vez voltei pra casa, achei o despertador quebrado que eu por algum motivo não havia jogado no lixo para reciclagem, e levei para o conserto. ironicamente, agora que sou a feliz proprietária de dois reloginhos ordinários, passei a acordar sozinha. minha ideia era fazer minhas práticas matinais - e isso inclui umas preces curti...

o carroceiro

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é uma vizinhança rica. não uma riqueza de beleza, de bondade, de alegria. é uma vizinhança rica de dinheiro. basta eu atravessar a grande avenida para chegar lá. é um lugar bom para andar, porque as ruas não têm buracos nem muitos carros, há muitas árvores grandes e belas e muitos passarinhos também. tem uma pequena praça onde ainda encontro bancos para sentar e equipamentos básicos para me alongar - o trepa-trepa no parquinho das crianças e uma geringonça instalada pela prefeitura e patrocinada por um banco onde há barras para esportistas se dependurarem.   o céu sobre a rica vizinhança  tenho ido cedo andar. e ontem me deparei com um carroceiro. ele ia à minha frente, puxando seu carrinho - seria um carro com tração animal, mas na cidade onde moro é proibido, então é um carro com tração humana, o que, pra mim, é um pouco mais doloroso. eu não enxergava todo ele, só partes deles. os pés e a cabeça. dava pra ver que era um homem velho, porque ele tinha cabelos brancos. e ...

os muitos passos para chegar à simplicidade

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faz dois anos este mês que eu decidi ficar um ano sem comprar roupas . na época, a decisão me deu frio na barriga, e na minha fantasia de consumidora que tenho sido ao longo dos anos, eu ficaria sem roupas (ou sem sapatos). amigas queridas me mandaram mensagens de apoio, e colocaram à disposição seus respectivos armários. eu não podia comprar, mas podia pegar emprestado ou ganhar peças de presente. na época, eu fiz uma lista do que tinha no meu armário , e sem o menor pudor publiquei o número de cada coisa - ficaram de fora pijamas, lingerie, meias, trajes de praia e roupas de corrida.  um ano depois, eu revi meu inventário e publiquei novamente a lista , com os números de 2018 e os números de 2019. eu não só não fiquei sem roupas como estranhamente o número de algumas coisas dentro do meu armário aumentou, em vez de diminuir. eu não roubei, o que era fácil, porque eu mesma tinha criado as regras e era a juíza do jogo. mas ganhei algumas roupas e transformei outras. e os empréstimo...

não tenho do que reclamar

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muitos anos atrás, quando eu estava grávida do meu primeiro filho, eu li um livro cujo título é "o que esperar quando você está esperando". ou algo assim. escrito por umas americanas pediatras, era um calhamaço com dicas adoráveis principalmente para mulheres que, como eu, seriam mães pela primeira vez. eu lembro de muitas até hoje.  uma delas dizia que nossos filhos escutam muitos nãos. e que, por isso, deveríamos manter um ambiente que a criança pudesse explorar sem muitos nãos. exemplo clássico: mesa de centro (ou de canto) da sala tomada de bibelôs. tem gente que acha ótimo o filho nunca tocar nas corujinhas de cristal ou nos elefantinhos de louça. mas parece tão mais legal você poder meter a mão e explorar (sim, crianças metem a mão e exploram e é bom que isso aconteça, porque algo depois muda e podemos virar adultos que não exploram muito ou que não exploram nada). mas por que uma pessoa fala sobre isso? meus filhos são quase adultos. não. um é adulto, o outro é quase. ...

não te estressa, mãe

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tchau. não te estressa, mãe. ele me deu um beijo e fechou a porta.  eu estava pensando em formas de praticar a paciência. e ele veio com essa frase. ontem ligamos a TV para assistir à apuração dos votos das eleições da terra do Tio Sam. nós não assistimos TV na nossa casa. só a ligamos para ver filmes. mas ontem ligamos para ver um canal norte-americano que fazia a transmissão no YouTube. achamos engraçada a velocidade das coisas na TV. um cenário colorido, com luzes que piscam, várias câmeras que se movem e cortam pra um apresentador e depois pra um comentarista e depois pra um repórter que está em outra cidade e volta pro estúdio. as pessoas falam rapidamente, muito rapidamente. um dos apresentadores parecia ser hiperativo, porque se mexia sem parar enquanto falava, de pé, em frente a um cenário menos colorido que o outro que estava atrás de uma bancada arredondada e gigante.  era sobre as eleições que o meu filho falava quando me disse para não me estressar. e eu respondi p...

sobre a difícil arte de deixar ir - parte II

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clean machine. eu ia escrevendo essas duas palavras toda vez que organizava minha agenda. meses se passavam, e eu sempre colocava no pé da folha do meu enorme caderno: clean machine. limpar a máquina era o que eu tinha de fazer para ter somente os arquivos necessários. mas, para fazer essa faxina no meu computador, seriam necessárias muitas horas. duas tardes. talvez três. tudo o que não é urgente é mais difícil de ser feito. e deve ter sido isso o que me levou a escrever inúmeras vezes "clean machine" na minha listinha semanal de atividades.  minha máquina, essa mesma que precisava de faxina, é lerda. é nova e é lerda. até que contatei o fabricante e descobri que a máquina não fazia algumas atualizações. eu tinha de ir até uma assistência técnica. mas, para melhorar as coisas e acabar ou diminuir meu mau humor colossal, a assistência técnica fica a menos de 500 metros da minha casa.  coloquei a máquina na mochila e fui andando bem, mas bem devagar. álcool gel, medição de tem...

focando no bom

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eu comecei a fazer uma lista das coisas boas desta quarentena-que-não-termina-nunca. é uma coisa bem pessoal, pra manter a minha sanidade e me lembrar de que há coisas BOAS acontecendo todos os dias, mesmo quando estamos sem trabalho, sem um puto tostão, e sem sair de casa. lá vai.  sem mesada para os filhos. não foi uma escolha filosófica, 'ah já que estamos na quarentena pra que ganhar mesada?'. foi uma falta de escolha. mãe sem trabalho não paga mesada. e não tem culpa mesmo assim, um dos meus filhos começou a investir na bolsa. uma lição para esta mãe, que nunca guardou dinheiro na vida o uso da máscara me ensinou que quanto mais lentamente eu respiro, menos aflitivo é minha casa ficou quente. não sei explicar muito bem os três moradores do apartamento têm cozinhado a melhor torta de limão do mundo eu voltei a fazer pão aprendi a fazer fermento, cujos ingredientes são água e farinha. sim, é verdade a qualidade da comida que comemos aumentou muito. mais tempo para fazer, mai...