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às mães exaustas

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deitei na cama depois de ter tomado café da manhã e comecei a chorar. as costas doem. desde a cintura até o pescoço. as noites de sono são insuficientes. não que eu durma poucas horas. é que as horas que eu durmo não são tão poderosas a ponto de fazer o cansaço passar. "você vai estourar" minha filha tem dito há dias. há quatro meses trabalho todos os dias. e agora começou a ficar insuportável. a dor nas costas me faz sofrer. então eu deitei e chorei. e relaxei com as costas doloridas.  na última semana eu tenho revivido os anos em que meus filhos eram pequenos. e tenho chorado. um, por lembrar como tive força e coragem e perceber que sobrevivi. dois, porque estou passando por isso de novo e vem tudo, as lembranças a exaustão o medo as fantasias. quando mudei meu estado civil de casada-infeliz-com-falta-de-ar para divorciada-vamos-ver-o-que-vai-acontecer, eu só estava me separando de um marido. não estava me separando dos meus filhos.  esperando o táxi pro aeroporto pra ir pr...

você não vai reclamar hoje, né?

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ela era uma pedagoga maravilhosa, cujo nome não lembro. mentira, lembrei. era pilar. um nome sólido. ela falava bem, era divertida e séria ao mesmo tempo. e não tinha nenhum traço de arrogância, que é o que costuma destruir qualquer encantamento.  e eu paguei o mico de perguntar, porque era uma palestra e tinha a parte das perguntas, o que eu podia fazer para os meus filhos pararem de reclamar. claro que eu não devo ter dito só isso. devo ter sido um pouco mais prolixa, porque isso faz uns dez anos e eu era mil vezes mais prolixa do que sou agora, quando estou na minha versão mais monja de todas. pilar respondeu com outra pergunta. você reclama muito? sim. eu reclamava mil horas a cada 24. e claro que eu não me dava conta disso. era um hábito grudado. antigo. hábitos são excelentes para nos deixar no modo automático, fazendo todos os dias tudo sempre igual.  pois bem. os anos se passaram, meus filhos cresceram, eu não vou mais a palestras de pedagogos e eu tenho como um dos tr...

o pão com manteiga bem espalhada

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há os que comem qualquer coisa, de qualquer jeito. e há os que comem com gosto e, por isso, não comem qualquer coisa. nem de qualquer jeito. ela é do segundo tipo. sempre experimentou de tudo. e com gosto. às vezes chegava em casa e me contava, animadíssima, o que tinha comido na casa de um colega da escola ou em uma festa de aniversário. e elogiava a mãe de um ou a empregada do outro, que cozinhavam MUITO bem, me contava. quando ela trocou de escola, aos três anos, ela demorou alguns dias, acho que semanas, para se adaptar à rotina do lanche e depois, brincar. como ela come devagar, enquanto todas as crianças devoravam seus lanches e saíam correndo para brincar no gigantesco jardim, ela ficava degustando o próprio lanche até a pausa acabar. e quando ela anunciava: "tia Lyscinha, vou brincar", as outras crianças já estavam entrando na sala novamente, porque a pausa tinha terminado. a Lys me contou isso com os olhos brilhando. era uma história linda. mas o melhor era o pão. el...

isso era pra ser um poema

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9h. reiniciei a máquina. e enquanto ela ia desligando e eu ia pra cozinha preparar um mate as palavras começaram a brotar do meu cérebro. hoje é domingo. acordei pouco depois das 5 e meia. desde que o meu despertador quebrou, na hora em que deito na cama para dormir eu falo pra mim mesma que vou acordar às 5 no outro dia. e acordo. nem sempre às 5, porque meu relógio interno tem lá suas questões. às vezes acordo meia hora antes. outras, meia hora depois. comprei um novo despertador, e depois de pagar por ele, o japonês que me atendia disse que consertaria o meu despertador quebrado. esses reloginhos são tão frágeis que eu jogava no lixo quando quebravam. mas desta vez voltei pra casa, achei o despertador quebrado que eu por algum motivo não havia jogado no lixo para reciclagem, e levei para o conserto. ironicamente, agora que sou a feliz proprietária de dois reloginhos ordinários, passei a acordar sozinha. minha ideia era fazer minhas práticas matinais - e isso inclui umas preces curti...

o carroceiro

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é uma vizinhança rica. não uma riqueza de beleza, de bondade, de alegria. é uma vizinhança rica de dinheiro. basta eu atravessar a grande avenida para chegar lá. é um lugar bom para andar, porque as ruas não têm buracos nem muitos carros, há muitas árvores grandes e belas e muitos passarinhos também. tem uma pequena praça onde ainda encontro bancos para sentar e equipamentos básicos para me alongar - o trepa-trepa no parquinho das crianças e uma geringonça instalada pela prefeitura e patrocinada por um banco onde há barras para esportistas se dependurarem.   o céu sobre a rica vizinhança  tenho ido cedo andar. e ontem me deparei com um carroceiro. ele ia à minha frente, puxando seu carrinho - seria um carro com tração animal, mas na cidade onde moro é proibido, então é um carro com tração humana, o que, pra mim, é um pouco mais doloroso. eu não enxergava todo ele, só partes deles. os pés e a cabeça. dava pra ver que era um homem velho, porque ele tinha cabelos brancos. e ...

os muitos passos para chegar à simplicidade

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faz dois anos este mês que eu decidi ficar um ano sem comprar roupas . na época, a decisão me deu frio na barriga, e na minha fantasia de consumidora que tenho sido ao longo dos anos, eu ficaria sem roupas (ou sem sapatos). amigas queridas me mandaram mensagens de apoio, e colocaram à disposição seus respectivos armários. eu não podia comprar, mas podia pegar emprestado ou ganhar peças de presente. na época, eu fiz uma lista do que tinha no meu armário , e sem o menor pudor publiquei o número de cada coisa - ficaram de fora pijamas, lingerie, meias, trajes de praia e roupas de corrida.  um ano depois, eu revi meu inventário e publiquei novamente a lista , com os números de 2018 e os números de 2019. eu não só não fiquei sem roupas como estranhamente o número de algumas coisas dentro do meu armário aumentou, em vez de diminuir. eu não roubei, o que era fácil, porque eu mesma tinha criado as regras e era a juíza do jogo. mas ganhei algumas roupas e transformei outras. e os empréstimo...

não tenho do que reclamar

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muitos anos atrás, quando eu estava grávida do meu primeiro filho, eu li um livro cujo título é "o que esperar quando você está esperando". ou algo assim. escrito por umas americanas pediatras, era um calhamaço com dicas adoráveis principalmente para mulheres que, como eu, seriam mães pela primeira vez. eu lembro de muitas até hoje.  uma delas dizia que nossos filhos escutam muitos nãos. e que, por isso, deveríamos manter um ambiente que a criança pudesse explorar sem muitos nãos. exemplo clássico: mesa de centro (ou de canto) da sala tomada de bibelôs. tem gente que acha ótimo o filho nunca tocar nas corujinhas de cristal ou nos elefantinhos de louça. mas parece tão mais legal você poder meter a mão e explorar (sim, crianças metem a mão e exploram e é bom que isso aconteça, porque algo depois muda e podemos virar adultos que não exploram muito ou que não exploram nada). mas por que uma pessoa fala sobre isso? meus filhos são quase adultos. não. um é adulto, o outro é quase. ...