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"folgado, sim; mimado, não"

uma das coisas mui divertidas da maternidade é ver os filhos crescendo. não falo do tamanho, mas da atitude. é a sensação de não estar sendo em vão todo o esforço, a musculação da alma, que dispensamos no intuito de criar, como eu gosto de dizer, seres humanos de verdade. no caso a verdade aqui não é o oposto de mentira. o "de verdade" neste caso são as caracterísitcas que fazem uma pessoa ser especial: bondosa, atenta, solítica, boa ouvinte, conectada, gentil, doce. estávamos havia muito tempo combinando uma ida à liberdade, o bairro japonês aqui de são paulo. o joão queria ir por motivos gastronômicos. e esses motivos têm um nome: bakery itiriki. eu queria comprar luminárias de papel para me livrar do belo e quebrado lustre de cristal da nossa sala. tudo pronto, e a lívia diz que está com dor de barriga. o guri começa a ter um ataque. e uma luz sutil iluminou meu espírito, eu NÃO fiquei furiosa e levei o cara para o quarto dele. lembramos de quando ELE passou mal, ficou u...

hoje é sexta-feira, Tião!

- hoje é sexta-feira, Tião! - e amanhã é sábado. o atendente da padaria era um homem velho, daqueles que têm uma aparência antiga. provavelmente as roupas dele deviam ter cheiro de naftalina. mas ele era quase gentil. o cliente que o cumprimentou parecia um velho connhecido. não só o chamou por Tião, como este ainda perguntou se ia comer queijo. a bordagem havia sido mui animada. eu estava ali porque "estava com tempo". tinha chegado à consulta médica muitos e muitos minutos adiantada. e saí andando para tomar um café. achei essa pequena e singela padoca, onde todos os clientes pareciam se conheceer. tomei meu café mui lentamente, e fiquei ouvindo frases soltas. como a do cabra cumprimentando o Tião. o que foi um alívio para mim. sim, eu podia sentir uma alegria só porque era sexta-feira. e então fui caminhando lentamente até a casa onde era o consultório. na hora de ir embora, o trânsito estava medieval. e eu fui curtindo estar parada ou andando a 10km/h. fiquei pensand...

pronto. as crianças fizeram aniversário

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nesta foto, momento transe pós festa. eu com a capa que a erika li fez, e que a lívia ganhou de natal. ... quando deus programou a procriação que dizia respeito à minha pessoa, pensou e pensou e concluiu que eu precisava de DOIS arianos na minha vida. e assim o joão nasceu no dia 10 de abril e, três anos depois, a lívia nasceu no dia 15 do mesmo mês. eu não me assusto facilmente. e assim tem sido com todas as festas belíssimas que fazemos na minha casa todo mês de abril, desde 2003, quando o então pequeno joão gabriel completou 1 ano e eu e o pai dele comemoramos com um bolo de maçã e nozes, no nosso singelo apartamento de estudantes em cambridge, nos estados unidos. ... este ano meu filho desejou de aniversário passar a data na casa do nonno e da vovó, que fica em porto alegre. e a lívia ganhou, pela primeira vez, uma festa no parque, com os meninos que fazem brincadeiras há anos nas festas do irmão dela. festão, com toda a turma da escola, mais os melhores amigos que ficaram no jard...

sem título

quando a gente mora longe da família, é assim: você sabe que alguém está morrendo por um telefonema. assim foi com a minha nonna. depois com a minha oma. e com a minha tia ienete. e agora com a minha adorada tia olinda. nunca a chamei de tia. mais velha de sete filhos, a olinda sempre foi muito, muito doce. eu era pequena, e uma vez por ano, acho, íamos para ijuí. ir para ijuí era uma longa, longuíssima jornada para nós, que éramos pequenos e não entendíamos nada sobre "ir", porque só queríamos "chegar". meus pais deitavam o encosto - único - do banco de trás do carro, e armavam uma cama para nós três. colocavam edredons, e íamos dormindo. não lembro das malas. talvez fossem num bagageiro em cima do carro, ou ao nosso lado. passados 10 minutos de estrada, começávamos: "paaaaaaai, falta muito?". o velho, que nunca foi a pessoa mais paciente do mundo, não gostava da pergunta. muitas vezes ele virava para trás aos gritos, e dizia que não devíamos...

devemos criar afetos, não desafetos

eu nunca tinha ido a uma defesa de tese - tenho de checar se é assim mesmo que se fala. mas dessa vez fui convidada e consegui desmarcar, adiar e cancelar compromissos para, às 14h, chegar à USP e, depois de dar uma bela volta por uma grande e linda avenida, encontrar o prédio e, por fim, a sala 114. não demorou para eu descobrir que uma defesa de tese é um evento longo. eu havia me programado para ficar na sala 114 por quase duas horas. mas aí soube que a conversa se alongaria até pelo menos as 18h. me sentei muito perto da porta, para que a deselegante saída fosse quase imperceptível. e então, quando todos os professores chegaram, a orientadora apresentou a doutoranda e os integrantes da banca, e os trabalhos começaram. eu não olhei no relógio, mas a apresentação da tese deve ter durado pouco menos de uma hora. e foi muito legal. a dani fez uma análise de textos que tratavam de contaminação do solo publicados pela Folha de S. Paulo e pelo Estadão, de 1992 até 2007. e pa...

quem cuida da nossa cidade?

nós éramos crianças e passávamos todas as longas férias de verão na casa de praia. eram uns 60 dias, nos quais, além de irmos à praia, andarmos de bicicleta e jogarmos vôlei no gramado da casa, visitávamos amigos e parentes dos nossos pais. minha mãe tinha três primas, e não lembro se as três ou somente duas ou uma só tinha um apartamento num prédio antigo no centrinho de Capão da Canoa, a maior "cidade" daquelas praias. e nesse prédio, que era geladinho por dentro, tinha uma placa falando da exigência do respeito ao silêncio depois do almoço - acho que das 13h às 15h, e à noite, tipo a partir das 22h. eu, que era criança, achava aquela placa um pouco assustadora. nós também tínhamos de fazer silêncio depois do almoço, para os nossos pais descansarem, e à noite, bem, à noite sempre dormíamos. mas não havia placa na nossa casa, claro. mas me lembrei da placa do prédio da Irene, da Gerturd ou da Laura no sábado, quando meu filho acordou perto da meia-noite e disse, meio choroso...

como é difícil mudar

chegamos em casa há pouco. altas horas da madrugada para quem acordou às 5am. e mais altas horas ainda para duas crianças que acordaram pouco depois das 5:30am, foram pra escola e depois passaram a tarde brincando e jogando futebol. mas dessa vez foi diferente. eu fui buscar as crianças sem pressa e sem mau humor. resgatei um em cotia. ele jogava wii com o amigo, e reinava o mais absoluto silêncio, porque todos os outros convidados já tinham partido. aceitei a cerveja que a anália me ofereceu, e nos sentamos na cozinha da maravilhosa casa que ela e o marido construíram, onde o cheiro do mato é fresco e forte e a lua de fato ilumina o jardim. tomei a cerveja tranquilamente enquanto conversávamos sobre morar no meio do mato ou morar em são paulo. e então partimos rumo à granja viana. a lívia estava na festa de aniversário de uma amiga. dessas festas com alma, em que a tia fez o bolo, e a dona da casa cozinhou macarrão para as crianças que tinham fome. mais uma vez me sentei, e tomamos vi...