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charme, luxo e poder

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a fila da padaria era pequena e andava rápida. quando chegamos ao caixa, as duas atendentes conversavam alegremente. como se a minha presença e a dos outros clientes não fizessem diferença. aliás, não faziam. "ela é bonita, ótima dona de casa", diz uma. "mas ela gostava mais dele", diz a outra. "minha mãe sempre diz que é o contrário, o homem tem que gostar mais da mulher", respondeu a primeira. "por isso não deu certo", completou a segunda. pelamordedeus, saí pensando da padaria. como a pessoa pode pensar assim? teria ela um medidor de amor pra saber quem gosta mais de quem? e que vida sem graça você ficar com alguém e saber que tem um que gosta mais do outro. ... estávamos naquelas constrangedoras salas de espera. a TV ligada, tudo como deve ser. e então uma senhora muito enrugadinha faz uma ligação do celular dela. diz ao interlocutor que irá se atrasar, e que ele poderia checar umas coisas. então ela fala o e-mail dela, e descubro que ...

a lente dos olhos e a do coração

"preste atenção. o que um dia se inciou tem de ser encerrado: essa é a lei do mundo. isso não é motivo de júbilo. nada vem no tempo certo, a vida não dá nada a quem se prepara. (...) duas pessoas não podem se cruzar nem mesmo na véspera, mas somente quando amadureceram para o encontro..." lajos, em "o legado de eszter", de sándor márai ... ela me ligou no meio da tarde. uma amiga querida estava na cidade, e haveria um jantar para poucas pessoas - ela frisou - na casa de outro amigo. e lá fui eu para a operação será-que-as-crianças-podem-ficar-com-o-pai-delas-à-noite-para-eu-poder-ir-ao-jantar-de-última-hora? eu não queria me frustrar, e fiquei pensando que tudo bem se não desse certo, mas deu. elas iriam dormir com o pai, e não na minha casa, como estava combinado. ficamos, minha amiga e eu, combinando horários e como ir - alguém vai beber? vamos de táxi? você já chegou em casa? deu certo com as crianças? achei maravilhoso não só ser convidada para o jantar com...

a vida aqui no interior

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enquanto a minha filha urra e vai se preparando pra ir pra cama, e meu filho lê depois de ignorar as ordens de ir pra cama, penso no que vou escrever, sobre a minha vida na cidade do interior onde, dizem, moram mais de 20 milhões de pessoas. são várias pequenas histórias que me fizeram ter certeza de que moro numa cidadezinha. tem a horta. é assim que eu chamo a caixa de papelão com verduras que chega à minha casa toda segunda-feira. só vem coisa fresquinha, e com cheiro que só o que é plantado sem veneno tem. tem os passarinhos. fui dia desses contar pras crianças que a gente percebia que a primavera estava perto por causa do canto enlouquecido dos passarinhos. expliquei que o macho canta pra chamar a atenção da fêmea. e a minha filha perguntou como eles namoravam. claro que eu nunca sei responder o que ela me pergunta. tem as azeitonas. tínhamos de preparar parte de um almoço grego para 150 pessoas. e as azeitonas estavam dando trabalho: a mayra tinha ido ...

a felicidade grátis

a ideia não é minha. há tempos eu pensava nisso. mas sempre eu tinha 'coisas pra fazer'. aí minha amiga teve um filho, e foi emagrecendo, emagrecendo, e me disse "tita, vamos logo fazer isso". o 'isso' é uma swishing party. o que quer dizer um evento em que cada mulher leva uma peça de roupa legal, e 30 minutos são reservados para olhar tudo, e depois toca-se o gongo e cada uma pega o que quiser. não, meu caro, não tem nada de selvagem. as regras são simples: é proibido cuspir, arranhar e bater. ponto. eu acho engraçado como a maioria das pessoas acha essa ideia mega selvagem, sem ordem. mas não é. porque não é uma feira de trocas, nem uma venda promocional, nem um bazar. é uma doação. você leva tudo o que você não usa mais. e como cada pessoa vai levar o que não usa mais, você eventualmente vai achar algo legal. eu convidei umas 20 amigas e, ao perceber que muitas não viriam, convidei outras dez. mas éramos somente seis hoje à tarde. ficamos esperando, p...

sobre a frugalidade

o livro é desses com a capa ordinária, e tem páginas cujo papel é fino, poroso e vai ficando cada vez mais amarelado. quando você compra, o papel é bege. passados dez anos, tá quase marrom.  mas eis que dia desses, eu lembrei do livro - o que é bem diferente de quando você passa em frente à estante e enxerga um livro. eu tenho poucos livros na minha casa. só guardo os que me tocaram profundamente, e que, por causa disso, eu acho que um dia eu ainda vou ler novamente. mas esse era diferente. eu nem lembrava o que tinha nele. sim, lembrava do assunto, mas não do conteúdo. e lá fui eu relê-lo, tantos anos depois.  eu costumo esquecer de muitas coisas. filmes e livros incluídos. então foi enorme a minha alegria quando encontrei um pequeno trecho sublinhado. sim, apesar de eu não lembrar lhufas, eu já tinha lido aquilo! e agora estou na parte em que os autores falam sobre frugalidade. sobre isso, o houaiss diz o seguinte: 1. moderação alimentar; 2. simplicidade, sobriedade d...

à espera dos sonhos

'eu tive muitos sonhos. mas tipo, dormindo eu fiquei esperando.' ela tinha acabado de acordar, e chegado à cozinha, onde eu preparava o café da manhã meio zonza de tanto que eu tinha sonhado. às vezes ela acorda e vai até a minha cama. mas às vezes eu acordo mais cedo, e então nos encontramos na cozinha. ela adora perguntar o que eu sonhei. e quando ela me pega deitada na cama escrevendo meu sonho no caderno, ela pede para eu contar. eu peço pra ela ela esperar um pouco, senão eu esqueço o que tenho de escrever. ela espera pacientemente. e toda vez que eu tento me livrar de contar o sonho e fecho o caderno, me dou mal. ela percebe. eu não conto tudo. leio uma parte, edito. e ela sempre diz "nossa, só isso?". é claro que ela sabe que não é só isso. às vezes eu escrevo os sonhos que ela conta no caderno dela. é um caderno que eu comprei quando ela ainda estava na minha barriga - na verdade, cada filho tem o seu. mas quem os guarda e quem escreve neles sou eu. as me...

o fim das férias

por que é bom ter amigos? porque eles iluminam o nosso caminho. e alimentam a nossa alma. e depois desses dias todos de muito pensar e nenhum escrever, recebi um texto belíssimo escrito pela lya luft. fiquei emocionada. estava lendo e-mails do trabalho, que jaziam na minha caixa de entrada do outlook tinha quase um mês, quando levo um susto. senti um alívio: minhas férias terminavam em grande estilo. ei-lo abaixo: Mês passado participei de um evento sobre as mulheres no mundo contemporâneo. Era um bate-papo com uma plateia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi.   Foi um momento inesquecível... A plateia inteira fez um 'oooohh' de descrédito. Aí fiquei pensando: 'pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não...