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mãe também é gente. bitte.

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Era pra ser mais um dia das mães.  Eu sempre acho que essas datas são mais bestas do que legais, mas percebi que não é bem assim quando meu filho disse que ia passar o fim de semana na casa do pai dele, no Rio de Janeiro. Justo no dia das mães. Mas como acho horrível forçar crianças a agradar adultos e suas expectativas restritas, egoístas e bestas, achei ok ele ir depois de perguntar várias vezes se ele tinha certeza de que queria passar o dia das mães com o pai dele e a madrasta. Assim, estávamos só minha filha e eu em casa no fim de semana. Sabia que queria duas coisas no domingo: não cozinhar e ganhar presente! No caso de mães que não têm maridos, cabe às próprias providenciar seus desejos – uma vantagem, uma alegria, essa coisa de não ficar esperando ninguém fazer o que você gostaria que fosse feito! Então sábado cedo fui de bicicleta até um pastifício perto de casa para comprar massas frescas e molho para o almoço de domingo. E ainda ganhei um galho enorme e lindo d...

bonitezaterapia

chegamos ao apartamento dela tarde da noite. não era esse o plano, mas o ônibus atrasou quase duas horas. trânsito em véspera de feriado, explicou o motorista. lerdeza, me falou uma passageira ao desembarcarmos na rodoviária do rio. minha amiga tinha ficado acordada nos esperando, porque senão não conseguiria acordar para abrir a porta pra gente, me explicou. fiquei constrangida, porque quase meia-noite não é hora pra chegar na casa de ninguém, a não ser do seu marido, e olhe lá. senti um conforto ao olhar pela sala os brinquedinhos do pequeno edgar pelo chão. e ao ver nossa cama arrumada no escritório, onde a alice tinha passado algumas horas na última semana arrumando umas bagunças pra nos receber. no outro dia, ao acordar, dou de cara com o mar. as janelas do escritório davam pro mar, e a da sala também. meu deus, que bonito. a praia vazia, uma ou outra pessoa andando no calçadão, e aquele mar verde enorme liso, com navios lá no fundo, e barquinhos andando no meio daquela água to...

o teto solar

quando minha mãe ficou doente, e todos sabíamos que ela ia morrer, eu tinha muita falta de ar. eu andava pela cidade com o teto solar do meu carro sempre aberto. eu tinha a sensação de que o ar que entrava pelo teto era forte para acabar com a minha falta de ar. é claro que era só uma fantasia minha. uns dias antes de ela morrer, minha filha e eu fomos sequestradas. eu fiquei com muito medo, mas tanto medo, que rezei durante os 45 minutos em que fiquei sentada na areia de um campo de futebol, numa ladeira sinistra na favela. depois eu dirigi bem bonitinha até em casa, dizendo pra minha filha que tínhamos de perdoar os malacos que haviam nos sequestrado e ido às compras com o meu cartão do banco enquanto eu e ela olhávamos formigas que andavam lentamente sobre a areia quente do campinho do futebol. quando eu cheguei em casa e encontrei meu filho - quando a gente é sequestrada a gente pensa que os malacos podem nos roubar tudo: a coragem, o carro, o dinheiro e até nosso filho que tá e...

as dores que passam

o médico que fez o parto do meu filho - o meu primeiro parto - dizia que as mulheres só têm um segundo filho porque esquecem a dor. e assim sucessivamente. pois além de eu ter esquecido as dores do primeiro parto a ponto de ter tido depois o segundo parto, também esqueci da dor que é pastar na fila do consulado norte-americano mendigando um visto para cruzar a fronteira e pisar em solo estrangeiro. tinha esquecido também que o governo norte-americano faz o mesmo tipo de pergunta para um bebê de dois meses - idade em que meu filho teve o primeiro visto, quando fomos morar lá naquelas terras longínquas - e para mim. o preenchimento do formulário cujo nome não guardei leva quase duas horas. como o visto que eu estava pleiteando era para a família inteira, passei uma manhã em frente à tela do computador respondendo a perguntas como "você já falsificou um visto?" ou "você já viu alguém falsificando um visto?" (ou seria falsificando um passaporte?, não lembro). com mai...

o dia dos milagres

abri os olhos e vi que tinha luz. fiquei olhando pro pequeno corredor e pensei que alguém estivesse acordado na sala, e com a luz acesa. mas a luz que eu enxergava da minha cama não era uma luz de lâmpada, era uma luz do dia. olhei no celular e vi 6:18. vi também na tela escrito "alarme". e percebi que tinha perdido a hora. eu acordo todos os dias às 5h. isso já faz alguns anos - começou quando meus filhos foram estudar na roça, que é como eu chamo carinhosamente o bairro onde fica a escola deles. também conhecido como o "o fim do mundo". pulei da cama o mais lentamente que pude e fui chamar as crianças com o máximo de doçura que consegui. eu estava saindo da cama na hora em que costumamos sair de casa. e um filminho passou pela minha cabeça - lembrei das milhares de vezes que acordei e tive de sair correndo. tipo a minha vida inteira, desde a infância até uns 30 anos (?). enquanto a água esquentava na chaleira, tomei um banho o menos loucamente que pude. perceb...

sobre mulheres que não param

ela era do tipo que nunca ficava sentada. nunca. a impressão que eu tinha, conforme eu ia crescendo, era que ela tinha alguma coisa na bunda. era isso o que diziam pra nós, crianças, quando um coleguinha não ficava sentado na classe: "fulano tem um furúnculo", ou "fulano tem um percevejo no bumbum" - neste caso, acho que se referiam ao objeto que usamos para fixar folhas num quadro de cortiça. e eu achava que era isso o que a minha mãe tinha - alguma coisa na bunda, que a impedia de ficar sentada. muitos e muitos anos depois é que eu fui entender por que uma pessoa não consegue ficar sentada. nós estávamos hospedando duas meninas de 11 anos num fim de semana. faz parte da política do Cisv, que promove acampamentos de crianças e adolescentes ao redor do mundo: famílias hospedam seu filho quando ele viaja, e a contrapartida é você hospedar crianças - gringas ou brasileiras - quando os acampamentos ocorrem no brasil. dessa vez, mia, americana, e filippa, sueca, passa...

perder-se

dizem que devemos todos os dias fazer novos caminhos, ou fazer as coisas de todo dia de um jeito diferente. essas mesmas pessoas defendem que assim nosso cérebro é exercitado. pois eu acho que mais do que o cérebro, a alma é exercitada. e é por isso que não saber onde estamos é bom. hoje fomos andando pra praia e pegamos o caminho - dois quarteirões - errado. seguimos andando e atravessamos uma área verde onde florzinhas ordinárias que crescem no meio do mato nos fizeram parar. eram lindas, delicadas e inéditas pros nossos olhos. depois nos deparamos com flores maiores e igualmente lindas. e de um colorido forte impressionante. a lívia sugeriu que voltássemos mais tarde pelo mesmo caminho para fotografar todas aquelas flores. mas não voltamos, porque o mar estava maravilhoso, o vento estava fresco e fomos ficando na praia. a ideia da delícia de se perder surgiu quando tive de aprender novos caminhos nesses dias de curtas férias em florianópolis. conheci uma praia que não conhecia, ...