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A mala do filho

As crianças estão acostumadas a viajar desde sempre. Moramos longe dos avós deles, e também morei nos Estados Unidos logo que meu filho nasceu. Depois o pai deles foi morar no Rio de Janeiro. Viajamos – ou eles viajam – muito. Eles viajam mais do que eu. Então a mala faz parte da vida deles.  Se uma criança não sabe fazer a mala a partir da idade em que já sabe escolher uma roupa – isso seria aos 3 anos? Ou aos 5? 7? Não lembro -, ela vai ter uma certa dificuldade em cuidar da própria bagagem. E talvez se torne uma pessoa que não dá conta de separar umas mudas de roupa pra passar uns dias fora de casa. Mas a maior dificuldade, é claro, é a gente deixá-la arrumar as suas coisas. Ah que trabalho que dá aguentar um filho fazer a sua mala e não ir lá mexer em tudo o que ele arrumou. E assim foi. O João ia viajar hoje com a classe dele. Então pedi que ele separasse as roupas ontem à tarde, e eu ia dar uma olhada – coisa que eu não faço há anos, mas achei que era necessário. Ah ah a...

liv e a vida de verdade

era um documentário. a liv ullmann falava da vida dela e, claro, da relação com ingmar bergman, pai da única filha dela. eu assisti em são paulo. numa sala de cinema. mas tenho a impressão de que foram poucas as pessoas que assistiram. eu tenho adoração por ela e por ele. e depois que vi o filme, minha adoração aumentou. como é difícil viver uma vida de verdade. numa cena do filme, ela diz que tem muita raiva, e que essa raiva ela usa para atuar. noutra parte ela diz que um dia falou pro bergman que achava um saco a carreira dela sempre estar relacionada à dele. ao que ele respondeu que ela era o stradivarius dele, e com ela (liv) ele (bergman) pode tocar/executar a arte dele. e no fim ela conta que nunca tinha usado um avião só pra ela. mas um dia ela teve um pressentimento e alugou um avião para ir a faro, ilha que fica no fim do mundo e onde eles se conheceram e bergman viveu uma grande parte da vida dele. quando ela chegou, teve tempo de se despedir dele, que estava morrendo - e...

as roupas e a alegria

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eu tenho medo de um dia acordar e ser uma pessoa irrelevante. uma pessoa que não tem nada pra fazer nem pra dizer, que não vai fazer ninguém nem triste nem feliz. mas enquanto esse dia que eu temo não chega, eu vou me divertindo - e levando o medo comigo, sem deixá-lo crescer demais. chamei muitas mulheres para uma sessão vamos-nos-livrar-do-que-não-usamos-mais. eu faço essas sessões na minha casa uma ou duas vezes por ano. é assim: um dia eu pego um pedaço de papel e faço uma lista enorme de amigas conhecidas e tals que poderiam gostar de vir trocar roupas. depois olho no calendário para achar uma data. sem crianças em casa funciona melhor. data escolhida, mando e-mail. todo mundo sempre tem pelo menos uma blusinha, um cinto talvez, que não faz mais diferença dentro do armário. mas desta vez foi muito divertido ter encontrado um vídeo que fala sobre o assunto - as roupas que temos e por que devemos manter só aquelas que nos trazem alegria. o vídeo fala do livro da marie kondo,...

mais sobre o fim do mundo

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- aceita cartão? - não. - aqui tem itau? - não tem banco aqui. só em serro ou diamantina. eu precisava dar um cheque para pagar o almoço. peguei meu talão de cheques e contei míseras cinco folhas. e então ela, docemente, ofereceu "trocar" meu cheque por dinheiro. 200?, perguntei. não consigo esse valor, disse ela. só 100. em são gonçalo do rio das pedras tem o essencial. para o almoço, a cleide, dona da pousada, ligou para dois ou três lugares. passava das 3 da tarde. ela então encomendou almoço para dez pessoas. ficaria pronto em 30 minutos. comemos como reis. R$ 20 para adultos, R$ 18 para adolescentes e para cada criança, R$ 10. para o passeio à cachoeira da rapadura - uma caminhada de 4 ou 7km, dependendo do interlocutor -, a cleide liga. a ideia de um jipe para as crianças voltarem ia dar certo (depois eu pegaria uma carona com o tal do jipe, porque também não aguentava mais andar). precisava comprar um shampoo. mas na vendinha onde almoçamos o shampoo tinha acab...

o fim do mundo - parte I

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chegamos ao salão da pousada já era quase meio-dia. uma moça apareceu da cozinha, e eu perguntei se ainda tinha café da manhã, mesmo vendo uma mesinha posta com dois lugares. sim, tinha café. o significado da simplicidade ficou muito claro. pão, bolo de laranja, mel e melado, duas jarras com sucos naturais (e sem açúcar!) cobertas com linho e tule. na mesa, potinhos de açúcar branco e mascavo, e dois potinhos sobre um pequeno suporte de madeira, um com manteiga, outro com geleia. fui à cozinha perguntar do que era a geleia. geleia de abacaxi com hortelã, me responde a edelnice. pergunto se ela pode nos ensinar a fazer. não, não podia. não tinha tempo. estava acabando de fazer outra geleia, dessa vez de abacaxi com limão - enquanto ela ia me falando, despejava aquela geleia amarelinha nos vidrinhos, com a ajuda de uma enorme colher de pau. meu deus! em êxtase, minha filha e eu ficamos comendo, "estou comendo até morrer", me diz a lívia, alegre e serenamente. "com tan...

mãe também é gente. bitte.

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Era pra ser mais um dia das mães.  Eu sempre acho que essas datas são mais bestas do que legais, mas percebi que não é bem assim quando meu filho disse que ia passar o fim de semana na casa do pai dele, no Rio de Janeiro. Justo no dia das mães. Mas como acho horrível forçar crianças a agradar adultos e suas expectativas restritas, egoístas e bestas, achei ok ele ir depois de perguntar várias vezes se ele tinha certeza de que queria passar o dia das mães com o pai dele e a madrasta. Assim, estávamos só minha filha e eu em casa no fim de semana. Sabia que queria duas coisas no domingo: não cozinhar e ganhar presente! No caso de mães que não têm maridos, cabe às próprias providenciar seus desejos – uma vantagem, uma alegria, essa coisa de não ficar esperando ninguém fazer o que você gostaria que fosse feito! Então sábado cedo fui de bicicleta até um pastifício perto de casa para comprar massas frescas e molho para o almoço de domingo. E ainda ganhei um galho enorme e lindo d...

bonitezaterapia

chegamos ao apartamento dela tarde da noite. não era esse o plano, mas o ônibus atrasou quase duas horas. trânsito em véspera de feriado, explicou o motorista. lerdeza, me falou uma passageira ao desembarcarmos na rodoviária do rio. minha amiga tinha ficado acordada nos esperando, porque senão não conseguiria acordar para abrir a porta pra gente, me explicou. fiquei constrangida, porque quase meia-noite não é hora pra chegar na casa de ninguém, a não ser do seu marido, e olhe lá. senti um conforto ao olhar pela sala os brinquedinhos do pequeno edgar pelo chão. e ao ver nossa cama arrumada no escritório, onde a alice tinha passado algumas horas na última semana arrumando umas bagunças pra nos receber. no outro dia, ao acordar, dou de cara com o mar. as janelas do escritório davam pro mar, e a da sala também. meu deus, que bonito. a praia vazia, uma ou outra pessoa andando no calçadão, e aquele mar verde enorme liso, com navios lá no fundo, e barquinhos andando no meio daquela água to...