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desconhecidos

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hoje acordei cedo como todos os dias, fiz tudo o que eu sempre faço. o café da manhã, o banho, o vestir-se com um mínimo de decência nesse frio excessivo, a paciência com a pequena lívia que leva 30 minutos pra sair da cama e colocar uma roupa e comer um pedaço de pão, a ida até a carona dela. mas então eu voltei pra casa e fui conhecer um lugar da cidade onde eu jamais tinha estado. uma são paulo de casinhas, de pessoas andando pela rua porque as calçadas são muito estreitas, onde a avenida tem uma pista pra ir outra pra voltar, e a faixa de segurança não tem farol nenhum - nem o dos carros, e o dos pedestres. uma são paulo que cheira bem, aquele céu azul de dia frio às 7h. casinhas antigas lojinhas pequenas. uma lindeza. eu que nunca uso muita roupa estava com um casaco de couro grosso pesado que me fez suar tanto que até o meu umbigo ficou molhado. acho que os termômetros marcavam uns 8 ou 9ºC. e eu suando feliz da vida de ter entrar num trem do metrô e sair e entrar num outro e a...

ao meu lado

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é engraçado perceber que meu filho cresceu em uma semana. mas é verdade: ele cresceu. quando você deixa de ver um filho todos os dias, você percebe algumas mudanças impressionantes. a primeira que eu percebi foi o pé dele. sim, o pé. ele tinha um pé de moleque, mais fino mais estreito mais curto. e dia desses ele tira as meias - segunda coisa que ele faz quando entra na minha casa, quase todo sábado. a primeira é tirar os tênis - e eu olho praquele pé e fico impressionada: mais longo, mais largo, pés de um homem. piegas. podre de piegas. mas fazer o quê? e então anotei, num papelzinho qualquer, "os pés dele". eu não queria me esquecer de escrever sobre isso. semana passada foi a vez da altura. olhei pro joão, que estava de pé ao meu lado, e não pude acreditar que ele estava mais alto que a última vez que eu o tinha visto, exatamente sete dias antes. fomos nos medir, e sim, ele me passou.  ele pediu pra ir morar com o pai dele. e eu também. era uma vontade anti...

a roupa azul, o mantra, os anjos

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- você quer que eu vá? - perguntei. - não precisa. ... - só se você quiser - ele completou. ... - queria que você estivesse aqui quando acabar a cirurgia. ... eu já estava chorando. primeiro ele me mandou uma mensagem dizendo que estava com muita dor. na hora eu liguei pra ele. ele chorava um pouco e reclamava da dor e ficava em silêncio. disse a ele para pedir ajuda pra madrasta ou pra santa neide. mas ele disse que não conseguia sair da cama. liguei pro pai dele. pedi que o levasse ao médico.  depois ele me mandou uma mensagem dizendo que a madrasta já tinha dado um remédio pra dor e que eles estavam indo pro hospital. fiquei aliviada e fui almoçar. e então ele me mandou uma mensagem dizendo que ia ter de operar. eu já tinha ligado para o meu médico, e já sabia que isso podia acontecer. e então foi uma sucessão de telefonemas e mensagens. eu chorava e desliguei a máquina e fui embora do escritório chorando muito. avisei a adriana, que senta ao meu lado e que ...

esses aniversários que eu tanto amo

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desde a primeira vez que passei por um aniversário de filho, fico muito emocionada. e a emoção vem em dobro, já que deus achou que só um ariano seria insuficiente para o meu aprendizado como mãe, e então mandou DOIS arianos. em cinco dias, eu passo por dois aniversários de filho. dois bolos, dois tipos de velas, duas comemorações - que têm cada vez menos gente, e eu não acredito quando lembro que já fiz, sozinha, festa para mais de 100 pessoas no parque -, e sentimentos intensos de gratidão e alegria e, maior de todos, incredulidade. criar filhos é ultra divertido, ultra trabalhoso. e ultra inacreditável. porque você sobrevive, e vai vivendo cada vez melhor. quando o joão fez um ano, a gente morava longe de todos os amigos e familiares. então tivemos um bolo, com o joão, o pai dele e eu. o bolo de nozes e maçã, se não me engano, não podia ser comido pelo joão porque ele não tinha dentes suficientes para mastigar os nacos de nozes. e eu olhava praquele guri e devo ter chorado quando ...

você não precisa ser forte. só bom

eu não aguento esse papo de "ouvir vozes". acho chato, arrogante, e muitas vezes histérico. mas a verdade é que eu não aguento dar conta de escutar o que eu tenho de escutar. e foi assim - ah ah ah, agora vou queimar meu filme -, um dia desses, numa tarefa banal, que é tomar banho, eu escutei a frase. você não precisa ser forte. minha mãe dizia que jesus falava com ela. eu conheço pessoas que dizem que os anjos conversam com elas. eu, um pouco mais descrente, não sei quem é o remetente,. mas eu escutei, e saí do banho aliviada. coisa mais besta passar a vida acreditando que quem é forte é bom. e eu passei anos e anos tendo CERTEZA disso. por isso sempre posei de forte. não falo só dos músculos, o que até seria razoável, porque ter força física faz bem. mas falo de outra força. daquela sobre a qual tomamos conhecimento quando somos crianças, quando começamos a escutar mensagens com doses cavalares de bestialidade: "não foi nada", "não precisa chorar", ...

coraggio, ragazza

eu sabia que eu ia chorar. mas tava demorando tanto. faz uns quatro meses que começamos a falar disso. meu filho queria morar com o pai. ele acabou de ir. e assim que eu me virei pra andar em direção ao portão de entrada do prédio, comecei a chorar. a gente nunca está preparada para a vida - ainda bem, senão o tédio ia ser insuportável. um dos textos que eu mais gosto começa assim: "vossos filhos não são vossos filhos". eu estava grávida do joão, e imagino que era o começo da gravidez quando o meu então médico me entregou, em papel A4, esse texto impresso, do khalil gibran. e desde então gosto de lembrar que meus filhos não são meus, mas do mundo. não vi escorrer uma lágrima dos olhos do joão, e ele tampouco viu escorrer lágrimas dos meus. e quando eu falava pra ele que íamos chorar no dia em que ele se mudasse, ele dizia que eu ia chorar mais do que ele. a primeira vez que a minha filha pediu pra dormir na casa de uma amiga ela tinha 4 anos. a mãe da amiga não deixou. o...

todo dia tudo igual

seria muito mais legal entrar no meu carro pra ir pro escritório. mas era o meu rodízio. e eu só poderia sair de carro depois das 10h. mas eu tinha uma reunião às 9h. iria a pé. mas começou a me dar uma aflição - eu chegaria suada ao escritório, e teria de sair de casa rapidinho. andando devagar levo 40 minutos para chegar, muito mais do que os 8 ou 10 minutos que levo de carro. então o táxi seria ótimo. por R$ 12 tava tudo resolvido. mas eu estava LOUCA pra andar. ai ai ai. teria de andar devagar, pra não precisar tomar um banho quando chegasse ao escritório. a mochila iria lotada. dentro dela teria de caber dois potes (um com meu almoço, outro com meu jantar, já que eu iria pra um curso depois do trabalho e não queria comer uma coxinha gorda e deliciosa), a minha bolsa, um agasalho e as minhas sandálias - eu não queria arriscar e andar 40 minutos com umas sandálias novas. e então a mochila ficou cheia. e eu ainda consegui colocar o guarda-chuvas num bolso lateral grande. fui and...