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a cuca da gerda

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o melhor de ter filhos em escola Waldorf é que a escola serve pros pais também. tipo promoção de supermercado, que você compra uma mostarda maravilhosa e ganha uma colherinha de madeira linda pra servir a sua mostarda. e então os pais ganham também. não colherinhas de madeira, mas noções básicas de civilidade; saquinhos de alegria; amigos em doses alopáticas - tipo dose única de remédio, cavalar, e não 5 gotinhas -; lições práticas do que é um grupo e como lidar com as diferenças, aceitando o outro com tudo o que ele tem diferente de mim; e a "mão na massa". por mão na massa me refiro a trabalho, esforço, dedicação. e neste momento, especificamente, me refiro a fazer uma cuca!   o trabalho das meninas é sobre a mata das araucárias, cuja existência eu, uma gaúcha bem falsificada, ignorava. eu sugeri que as meninas levassem quitutes típicos da região, porque aprendemos com o cérebro, o coração e o estômago - o que é cientificamente comprovado, eh eh eh. e lá fomos ...

nossa vida sem a nalva

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meus filhos foram criados por duas mulheres: esta que escreve e ednalva moreira miranda, a.k.a. santa nalva. sem exageros nem pieguice, foi a nalva quem cuidou dos meus filhos, os levou para nadar na ACM quando eu não tinha dinheiro para pagar uma escola de natação, os buscou da escola e os colocou na cama enquanto eu trabalhava. não. eu não era uma executiva fodona que trabalhava 14 horas por dia ou mais. eu trabalhava o tanto que qualquer pessoa trabalha. todos os dias, uns dias mais, uns dias menos, um ou outro fim de semana quando as crianças já estavam na cama, uma ou outra noite durante a semana quando o prazo apertava. mas alguém tinha de cuidar das crianças quando eu não estava em casa, e essa pessoa era a nalva. eis que meu filho saiu de casa e minha filha aprendeu a andar de ônibus sozinha. e fomos vivendo um dia depois do outro e a nalva virou uma governanta, num apartamento pequeno, sem nenhum empregado pra ela dar ordens, com uma garota que já dava conta de chegar da es...

20 anos depois

20 anos depois, eu volto à praia onde eu costumava vir com o meu marido. tudo mudou tanto, mas ao mesmo tempo é familiar. em vez de uma casinha de madeira pequena e singela e abafada, uma casa de madeira pequena, mas ampla e arejada e cheia de luz, um banheiro com janelão para o mato e telhas de vidro no teto. sem TV sem som sem internet. um retiro acidental, com as crianças felizes, energizadas, livres. muitos livros num canto, redes na sala e na varanda, uma cozinha aberta para a sala, onde eu faço qualquer coisa para comer e que é sempre é motivo de alegria. a noite é escura, preta. e tem barulhos desconhecidos para nós, que moramos na cidade grande e cinza. de manhã, a claridade entra pelos buraquinhos entre as madeiras das venezianas (ou seriam persianas?). aí eu sei que já é hora de pular da cama pra ver o sol sair por detrás do grande morro ao pé do qual estamos. não, a casa não fica na beira da praia. para ver o mar, é preciso algum esforço. andamos por uma trilha linda, c...

A viagem, a coragem, a bênção

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Viajar é, antes de mais nada, um ato de coragem. ... Comecei a sentir pingos muito sutis. Escondi minha câmera fotográfica/celular sem sinal da operadora debaixo da toalha na qual eu estava enrolada e continuei meditando. Eu tinha me acordado muito cedo para ver o sol nascer. Eu sabia que a previsão era de chuva, mas coloquei o despertador para tocar às 5h10. Ontem eu tinha acordado às 5h45 e quando cheguei à praia, às 6h, o sol já estava despontando por detrás de uma nuvem que descansava sobre o mar. E o dia já estava claro. Hoje eu queria ver o dia clarear. Me aprontei lentamente e fui para a praia andar. Fui andando até a ponta da praia, mas parei um pouco antes para fotografar um banco de madeira impressionante, preto, sólido, bonito e que deve estar no lugar onde eu o encontrei há muito, muito tempo. Parei para tirar uma foto, mas senti vontade de sentar. E quando sentei de frente para o mar e para o céu cinza escuro senti vontade de meditar ali, sentada numa ...

desconhecidos

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hoje acordei cedo como todos os dias, fiz tudo o que eu sempre faço. o café da manhã, o banho, o vestir-se com um mínimo de decência nesse frio excessivo, a paciência com a pequena lívia que leva 30 minutos pra sair da cama e colocar uma roupa e comer um pedaço de pão, a ida até a carona dela. mas então eu voltei pra casa e fui conhecer um lugar da cidade onde eu jamais tinha estado. uma são paulo de casinhas, de pessoas andando pela rua porque as calçadas são muito estreitas, onde a avenida tem uma pista pra ir outra pra voltar, e a faixa de segurança não tem farol nenhum - nem o dos carros, e o dos pedestres. uma são paulo que cheira bem, aquele céu azul de dia frio às 7h. casinhas antigas lojinhas pequenas. uma lindeza. eu que nunca uso muita roupa estava com um casaco de couro grosso pesado que me fez suar tanto que até o meu umbigo ficou molhado. acho que os termômetros marcavam uns 8 ou 9ºC. e eu suando feliz da vida de ter entrar num trem do metrô e sair e entrar num outro e a...

ao meu lado

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é engraçado perceber que meu filho cresceu em uma semana. mas é verdade: ele cresceu. quando você deixa de ver um filho todos os dias, você percebe algumas mudanças impressionantes. a primeira que eu percebi foi o pé dele. sim, o pé. ele tinha um pé de moleque, mais fino mais estreito mais curto. e dia desses ele tira as meias - segunda coisa que ele faz quando entra na minha casa, quase todo sábado. a primeira é tirar os tênis - e eu olho praquele pé e fico impressionada: mais longo, mais largo, pés de um homem. piegas. podre de piegas. mas fazer o quê? e então anotei, num papelzinho qualquer, "os pés dele". eu não queria me esquecer de escrever sobre isso. semana passada foi a vez da altura. olhei pro joão, que estava de pé ao meu lado, e não pude acreditar que ele estava mais alto que a última vez que eu o tinha visto, exatamente sete dias antes. fomos nos medir, e sim, ele me passou.  ele pediu pra ir morar com o pai dele. e eu também. era uma vontade anti...

a roupa azul, o mantra, os anjos

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- você quer que eu vá? - perguntei. - não precisa. ... - só se você quiser - ele completou. ... - queria que você estivesse aqui quando acabar a cirurgia. ... eu já estava chorando. primeiro ele me mandou uma mensagem dizendo que estava com muita dor. na hora eu liguei pra ele. ele chorava um pouco e reclamava da dor e ficava em silêncio. disse a ele para pedir ajuda pra madrasta ou pra santa neide. mas ele disse que não conseguia sair da cama. liguei pro pai dele. pedi que o levasse ao médico.  depois ele me mandou uma mensagem dizendo que a madrasta já tinha dado um remédio pra dor e que eles estavam indo pro hospital. fiquei aliviada e fui almoçar. e então ele me mandou uma mensagem dizendo que ia ter de operar. eu já tinha ligado para o meu médico, e já sabia que isso podia acontecer. e então foi uma sucessão de telefonemas e mensagens. eu chorava e desliguei a máquina e fui embora do escritório chorando muito. avisei a adriana, que senta ao meu lado e que ...