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inéditos

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viajar combina com frio na barriga. e com lugares inéditos. pro viajante, é claro. não é preciso ir até o fim do mundo para pisar em solo desconhecido. às vezes não conhecemos o café que fica na esquina da nossa casa, nem o nosso vizinho de porta. mas eu SEMPRE acho que os lugares inéditos ficam no fim do mundo. e hoje viemos pro fim do mundo. desde criança - e tem uma foto em que meu irmão é carregado num cesto de vime pelos meus pais para provar -, minha família viaja pra serra gaúcha. parece que tudo começou com o meu avô, que sendo alemão, adorava um mato e um ar fresco, que eram encontrados na serra nos meses de calor insuportável. minha mãe passava férias em são francisco de paula, e depois meus pais passavam fins de semana comigo e com meus irmãos no mesmo hotel. mas teve um dia em que o hotel estava lotado, e fomos atrás de pouso em gramado ou canela, e meu pai resolveu mostrar pra gente o prédio onde um amigo tinha acabado de comprar um pequeno apartamento. e nesse mes...

sobre o mês de dezembro

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  O vento gelado batia e esfriava as partes do meu corpo que estavam descobertas: pernas, mãos, pescoço e cabeça. O relógio do parque marcava 16°C, um grau a mais que a temperatura divulgada pela moça do tempo do rádio, e um a menos do que marcava o termômetro do meu carro desde as 6h30 da manhã. A volta no parque é grande, e eu fiquei entediada. Quando cheguei no ponto em que eu começaria a corrida, não consegui correr. Muita leveza, muita lerdeza. Sem correr, fui andando meio borocoxô. E fiquei pensando no mês de dezembro. Fui dizendo muitos nãos ao longo do mês que ainda não terminou. Deixei de ir a uma festa onde encontraria amigos queridos de longa data. Não confirmei uma happy hour no escritório. Não marquei um encontro de amigas na minha casa que até já tinha data reservada. Nem irei jantar com as minhas amigas de infância. Por um momento fiquei desconfiada que eu tinha virado uma velha ranzinza. Mas quando uma das minhas amigas de infância com quem eu tentava marcar...

a comida sem tempero e a alegria

olho no relógio. são 23h51. minhas amigas acabam de ir embora. inventei um jantar para celebrar que 2016 está chegando ao fim. é sempre importante ter motivos para celebrar, e usar isso como desculpa para encontrar os amigos, comer, dar risada. conversar, compartilhar.  nunca dá tempo de falar tudo o que queremos. tampouco de completar as frases que começamos. somos amigas há muitos anos. amigas como dá pra ser quando temos filhos e moramos numa cidade muito grande e temos de trabalhar e algumas de nós têm marido. mas o tempo faz as amizades serem sólidas, fortes e alegres. o jantar tinha de ser leve. uma de nós tem restrições alimentares, por conta de um tratamento. verduras, legumes, raízes. tudo orgânico. isso era tudo o que eu sabia. então preparei o jantar mais frugal da minha vida. radicchio + abobrinha e cenouras cruas em tiras + bolinhos de inhame com cebolinha grelhados com óleo de coco. havia chutneys maravilhosos, um pão integral caseiro, e eu coloquei na mesa um ...

Ah, não! - sobre a tal da tolerância

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tolerância substantivo feminino 1 ato ou efeito de tolerar; indulgência, condescendência 2 qualidade ou condição de tolerante 3 tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas ‹nas relações sociais, a t. é uma virtude› ... eu estava andando no parque. era cedo. fazia tempo que eu não ia até o parque para andar. e estava maravilhada olhando o céu com nuvens que formavam desenhos, o sol às vezes me cegando, as árvores tão verdes nesta estação que precede o verão, o vazio do parque e do estacionamento do parque.  o céu muito azul pra me mostrar que há coisas belas e então um grupo de mulheres vem andando na direção oposta à que eu ia, e uma delas, que eu conheço de vê-la sempre andando com as amigas, diz algo como "eu vi que ele tinha ganhado". eu segui andando e pensei ah, não pode ser! segui andando e corri e terminei minha caminhada e fui pras barras fazer os alongamentos, e ...

o que faltava

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meditar requer prática. requer esforço. requer persistência. sentei sobre a minha surrada almofada de meditação. os vidros triplos da janela antirruído já estavam fechados, para amenizar os barulhos estridentes do trator e da serra da obra do metrô. eu estava orgulhosa: tinha meditado 40 minutos ontem à noite e agora, passadas menos de 12 horas, me preparava para meditar outros 40 minutos. mas eu não consegui. o siricutico típico que me acomete quando paro de sentir as pernas chegou. e eu me mexi, mudei de posição, senti calor, as pernas formigavam, me levantei para ligar o ventilador. depois voltei à posição sentada, mas num salto fiquei de pé e achei que não estava bom. resolvi me aprontar e partir para o escritório. era uma animação estranha. a pessoa levanta do chão e fica animadíssima ao desistir de meditar e resolver chegar cedo ao escritório numa sexta-feira cinzenta. eu tinha tido a ideia de ir de bicicleta. carro enche o saco, e numa sexta-feira um carro enche muiiiiito o ...

a cuca da gerda

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o melhor de ter filhos em escola Waldorf é que a escola serve pros pais também. tipo promoção de supermercado, que você compra uma mostarda maravilhosa e ganha uma colherinha de madeira linda pra servir a sua mostarda. e então os pais ganham também. não colherinhas de madeira, mas noções básicas de civilidade; saquinhos de alegria; amigos em doses alopáticas - tipo dose única de remédio, cavalar, e não 5 gotinhas -; lições práticas do que é um grupo e como lidar com as diferenças, aceitando o outro com tudo o que ele tem diferente de mim; e a "mão na massa". por mão na massa me refiro a trabalho, esforço, dedicação. e neste momento, especificamente, me refiro a fazer uma cuca!   o trabalho das meninas é sobre a mata das araucárias, cuja existência eu, uma gaúcha bem falsificada, ignorava. eu sugeri que as meninas levassem quitutes típicos da região, porque aprendemos com o cérebro, o coração e o estômago - o que é cientificamente comprovado, eh eh eh. e lá fomos ...

nossa vida sem a nalva

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meus filhos foram criados por duas mulheres: esta que escreve e ednalva moreira miranda, a.k.a. santa nalva. sem exageros nem pieguice, foi a nalva quem cuidou dos meus filhos, os levou para nadar na ACM quando eu não tinha dinheiro para pagar uma escola de natação, os buscou da escola e os colocou na cama enquanto eu trabalhava. não. eu não era uma executiva fodona que trabalhava 14 horas por dia ou mais. eu trabalhava o tanto que qualquer pessoa trabalha. todos os dias, uns dias mais, uns dias menos, um ou outro fim de semana quando as crianças já estavam na cama, uma ou outra noite durante a semana quando o prazo apertava. mas alguém tinha de cuidar das crianças quando eu não estava em casa, e essa pessoa era a nalva. eis que meu filho saiu de casa e minha filha aprendeu a andar de ônibus sozinha. e fomos vivendo um dia depois do outro e a nalva virou uma governanta, num apartamento pequeno, sem nenhum empregado pra ela dar ordens, com uma garota que já dava conta de chegar da es...