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surtando

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os dias vão passando e eu vou fazendo de conta que não preciso escrever. vou colecionando pedacinhos de papel - uma folha A4 cortada ao meio, uma folha do bloco de algum amigo, um post it pequeno, um post it grande, uma folha colorida de um bloco infantil. vou anotando e enfiando os papéis na agenda, na carteira, soltos na bolsa, numa pasta com minhas infindáveis listas. mas a vida nos mostra o que precisamos ver. e hoje eu vim dirigindo de volta pra casa chorando, me sentindo uma pobre coitada, e anotei num post it pequeno e amarelo: eu sou muito quadrada. esse era pra ser o título deste texto. eu sou muito quadrada. só porque eu falo palavrão, dou gargalhadas, tenho os cabelos não penteados, acho difícil me vestir com decência e falo o que penso, ninguém olha pra mim e pensa meu-deus-que-pessoa-quadrada! mas acho um horror ter os cabelos tão revoltos, usar confortáveis botas masculinas de couro de uma fábrica gaúcha, ter rugas, ser grisalha, estar gorda, morar sozinha com os m...

o mundo que nós mostramos aos nossos filhos

- mãe, a cata pode ir em casa? era pouco antes do meio-dia, e a mensagem apareceu na tela do meu celular e, acho que por instinto, eu vi na hora que era da minha filha. de manhã é o horário em que ela está na escola e onde, evidentemente, o uso de aparelhos celulares não é permitido. perguntei do que ela estava falando, e COMO estava falando comigo se estava na escola, em horário de aula. ela estava no banheiro - possivelmente escondida para mandar as mensagens pra mim e conseguir resolver a tarde de hoje. já estava combinado que a laura, uma colega da lívia, viria com ela pra casa hoje. elas voltariam de ônibus. e almoçariam e fariam a lição e brincariam, e eu chegaria em casa no fim da tarde. mas agora os planos estavam mais ambiciosos: tinha uma segunda amiga e um pedido de ir ao cinema. cinema? - sim, mãe, a gente vai depois de fazer a lição. purf purf. - NÃO. é difícil dar essa resposta quando a pergunta vem de uma menina tão doce como a lívia. mas eu não ia enrolar nem pens...

inéditos

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viajar combina com frio na barriga. e com lugares inéditos. pro viajante, é claro. não é preciso ir até o fim do mundo para pisar em solo desconhecido. às vezes não conhecemos o café que fica na esquina da nossa casa, nem o nosso vizinho de porta. mas eu SEMPRE acho que os lugares inéditos ficam no fim do mundo. e hoje viemos pro fim do mundo. desde criança - e tem uma foto em que meu irmão é carregado num cesto de vime pelos meus pais para provar -, minha família viaja pra serra gaúcha. parece que tudo começou com o meu avô, que sendo alemão, adorava um mato e um ar fresco, que eram encontrados na serra nos meses de calor insuportável. minha mãe passava férias em são francisco de paula, e depois meus pais passavam fins de semana comigo e com meus irmãos no mesmo hotel. mas teve um dia em que o hotel estava lotado, e fomos atrás de pouso em gramado ou canela, e meu pai resolveu mostrar pra gente o prédio onde um amigo tinha acabado de comprar um pequeno apartamento. e nesse mes...

sobre o mês de dezembro

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  O vento gelado batia e esfriava as partes do meu corpo que estavam descobertas: pernas, mãos, pescoço e cabeça. O relógio do parque marcava 16°C, um grau a mais que a temperatura divulgada pela moça do tempo do rádio, e um a menos do que marcava o termômetro do meu carro desde as 6h30 da manhã. A volta no parque é grande, e eu fiquei entediada. Quando cheguei no ponto em que eu começaria a corrida, não consegui correr. Muita leveza, muita lerdeza. Sem correr, fui andando meio borocoxô. E fiquei pensando no mês de dezembro. Fui dizendo muitos nãos ao longo do mês que ainda não terminou. Deixei de ir a uma festa onde encontraria amigos queridos de longa data. Não confirmei uma happy hour no escritório. Não marquei um encontro de amigas na minha casa que até já tinha data reservada. Nem irei jantar com as minhas amigas de infância. Por um momento fiquei desconfiada que eu tinha virado uma velha ranzinza. Mas quando uma das minhas amigas de infância com quem eu tentava marcar...

a comida sem tempero e a alegria

olho no relógio. são 23h51. minhas amigas acabam de ir embora. inventei um jantar para celebrar que 2016 está chegando ao fim. é sempre importante ter motivos para celebrar, e usar isso como desculpa para encontrar os amigos, comer, dar risada. conversar, compartilhar.  nunca dá tempo de falar tudo o que queremos. tampouco de completar as frases que começamos. somos amigas há muitos anos. amigas como dá pra ser quando temos filhos e moramos numa cidade muito grande e temos de trabalhar e algumas de nós têm marido. mas o tempo faz as amizades serem sólidas, fortes e alegres. o jantar tinha de ser leve. uma de nós tem restrições alimentares, por conta de um tratamento. verduras, legumes, raízes. tudo orgânico. isso era tudo o que eu sabia. então preparei o jantar mais frugal da minha vida. radicchio + abobrinha e cenouras cruas em tiras + bolinhos de inhame com cebolinha grelhados com óleo de coco. havia chutneys maravilhosos, um pão integral caseiro, e eu coloquei na mesa um ...

Ah, não! - sobre a tal da tolerância

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tolerância substantivo feminino 1 ato ou efeito de tolerar; indulgência, condescendência 2 qualidade ou condição de tolerante 3 tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas ‹nas relações sociais, a t. é uma virtude› ... eu estava andando no parque. era cedo. fazia tempo que eu não ia até o parque para andar. e estava maravilhada olhando o céu com nuvens que formavam desenhos, o sol às vezes me cegando, as árvores tão verdes nesta estação que precede o verão, o vazio do parque e do estacionamento do parque.  o céu muito azul pra me mostrar que há coisas belas e então um grupo de mulheres vem andando na direção oposta à que eu ia, e uma delas, que eu conheço de vê-la sempre andando com as amigas, diz algo como "eu vi que ele tinha ganhado". eu segui andando e pensei ah, não pode ser! segui andando e corri e terminei minha caminhada e fui pras barras fazer os alongamentos, e ...

o que faltava

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meditar requer prática. requer esforço. requer persistência. sentei sobre a minha surrada almofada de meditação. os vidros triplos da janela antirruído já estavam fechados, para amenizar os barulhos estridentes do trator e da serra da obra do metrô. eu estava orgulhosa: tinha meditado 40 minutos ontem à noite e agora, passadas menos de 12 horas, me preparava para meditar outros 40 minutos. mas eu não consegui. o siricutico típico que me acomete quando paro de sentir as pernas chegou. e eu me mexi, mudei de posição, senti calor, as pernas formigavam, me levantei para ligar o ventilador. depois voltei à posição sentada, mas num salto fiquei de pé e achei que não estava bom. resolvi me aprontar e partir para o escritório. era uma animação estranha. a pessoa levanta do chão e fica animadíssima ao desistir de meditar e resolver chegar cedo ao escritório numa sexta-feira cinzenta. eu tinha tido a ideia de ir de bicicleta. carro enche o saco, e numa sexta-feira um carro enche muiiiiito o ...