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querido monstro, você não vai me pegar. assinado eu.

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diferentemente das propagandas de margarina e das fotos postadas pelos amigos no clima ó-vejam-como-sou-feliz no famigerado Facebook, tem dias em que eu acordo com problemas. não é nada prático, palpável, tipo "quando será que o meu cliente vai efetuar o pagamento que deveria ter sido feito em fevereiro?" ou "será que a greve da escola da minha filha que já dura quase três semana irá se estender por muitos dias?". são problemas imaginários. é a sabotagem, minha amiga íntima e de longa data. que vem em forma de pensamentos nada gentis como ah-que-vida-dura, ó-como-eu-sou-incapaz ou ai-eu-não-vou-dar-conta. um monstro. quanto mais rápido eu ando, maior é a rasteira que posso levar da sabotagem. por isso, já tem uns anos que eu tenho me concentrado para andar mais devagar. foi em 2013, precisamente, que descobri que sentar e praticar meditação era uma cura para a minha velocidade estonteante (mais tarde fui descobrir que queria ensinar isso e estou fazendo formação p...

mamãe vai viajar e já volta

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eu não sei se em todas as famílias funciona assim, mas creio que na maioria, sim. quando tem viagem, seja de filho, de mãe, de mãe com filho ou de toda a família, a mãe é a pessoa que fica mais ocupada com os preparativos. bem, me parece que há algumas exceções. caso da minha amiga que é casada com um homem que não é brasileiro e que cozinha todas as noites. suponho que ele também arrume malas e organize o porta-malas do carro e se responsabilize por outras coisas. mas ele é uma versão-quase-aberração do homem que faz. e então eu peguei um trabalho cujo desenvolvimento exigirá algumas viagens. uma, que aconteceu uns dias atrás, e possivelmente mais uma ou duas. tudo foi preparado com antecedência. um cliente organizado e tranquilo, eu idem ibidem. datas, agendas, cronogramas. tudo certo. e as crianças? eles não são mais crianças. são meus filhos. e exatamente por este motivo desta vez eles, os meus filhos, ficariam sozinhos. deixar filho sozinho não é exatamente um problema. pode...

o farol fechado e a pedestre boba (e feliz)

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Tem uma frase do mestre zen Thich Nhat Hanh que questiona por que estamos sempre correndo. É algo como “todos seremos enterrados quando morrermos, então pra que você corre?” As pessoas que sabem que não devemos correr sempre questionam: por que você está correndo? Onde pretende chegar? A frase me veio à cabeça durante o trajeto que estou fazendo, a pé, da minha casa até a redação da revista onde estou trabalhando por duas semanas. Como o tempo que eu levo de ônibus é igual ou superior ao tempo que eu levo se for andando, e como eu tenho um punhado de quilos que acumulei nos último anos e dos quais quero muito me livrar, decidi andar. Vou pelo caminho mais barulhento, mas mais tranquilo para pedestres. A avenida é larga e tomada de carros, e as calçadas também são largas e tomadas de gente apressada. No dia em que assisti a um vídeo sobre como fazer pedestres parar na hora de atravessar a rua, s enti um grande alívio . O vídeo contava uma história (tipo uma dança que aparecia no ...

sobre largar a borda da piscina para se jogar

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"se pra mim já foi difícil largar a borda da piscina e me jogar na travessia marítima, imagino fazer isso com filhos." ... meu avô morava numa casa em cujo jardim, que ficava num terreno em suave declive, tinha uma piscina. eu era muito pequena e, para o meu tamanho, aquilo tudo era enorme. o jardim, a piscina, as árvores. a piscina tinha um formato arredondado, e ao redor de toda a borda, pelo que me lembro, tinha uma espécie de cano de metal pintadinho (o que fazia com que não parecessem canos) que ficava preso aos azulejos e permitia que os banhistas se segurassem ali. nós, os netos, éramos crianças e não sabíamos nadar. mas podíamos - uau! - andar ao redor de toda a piscina, na parte funda inclusive, segurando as mãozinhas nesse cano que estava em toooooooda a borda da piscina. mesmo com essa engenhoca, cuja existência está provada na foto abaixo, meu avô, quando nadava, tinha ajuda. o generino, jardineiro da casa, ia andando pela beirada da piscina, segurando algo que...

Marie Kondo-ing dentro de mim

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digam o que disserem, as lições mais preciosas da vida vêm nos momentos menos, digamos, felizes. isso não é uma escolha nossa, feliz ou infelizmente. assim é que é. quando o mergulho nos momentos não propriamente felizes é profundo, mal conseguimos enxergar. na verdade, por vezes não enxergamos absolutamente nada. e aí todos os comentários que escutamos nos parecem ridículos, fora da realidade ou uma piada de mau gosto.  eu devia estar chorando ao ponto de molhar a mesa sobre a qual estava o meu computador quando minha querida mentora me diz, no seu inglês de mulher irlandesa, que não ter dinheiro é um processo rico (isso não é um trocadilho), de muito aprendizado. ela lá no canadá, onde mora, eu aqui no brasil, e uma tela na cara de cada uma, de forma que ela sempre pode VER minhas lágrimas escorrendo. claro que não demorou muitos minutos do nosso primeiro encontro virtual - viriam mais outros depois - para ela dizer que eu sou fortemente regida pelas emoções. karen é uma mu...

bom dia, 2018

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era uma cidade diferente. de manhã, nem tão cedo assim, podia-se escutar os passarinhos. muitos deles, cantando com a alegria que é típica de todo canto de passarinho. as ruas vazias, muito vazias, como se eu estivesse em uma cidade que foi abandonada pelos seus moradores. tive a impressão de que os passos das pessoas que andavam com seus cachorros também eram diferentes. eram passos lentos, sem pressa. passos de quem anda não para chegar a algum lugar, mas para andar. fiz um caminho mais curto. e cruzei com somente três guardinhas de rua. trocamos "feliz ano novo" com gentileza. sem alegria nem tristeza. na pracinha, sempre tomada de crianças, babás, pais e mães, somente três crianças eram embaladas nos balanços - por três adultos que faziam o movimento ritmado de empurrar seus filhos e esperar que o balanço voltasse para empurrar novamente as crianças. parecia uma coreografia. ao redor da praça, ninguém andava além de mim e de um velho não tão velho assim, mas com idad...

o ano que acaba e a minha promessa de NÃO viajar

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a chuva começou devagar. eu estava sentada não muito perto da janela, e não conseguia ver se caíam pingos ou se eu estava imaginando que estava chovendo. mas em poucos minutos a chuva começou a cair com força. dava pra ver a cortina de água que se formava no ar e que agora eu podia enxergar perfeitamente de onde estava. eu estava meditando. e chorando. andamos mais ou menos 2.500 km nos últimos dias. foi um pedido dos meus filhos: passar o natal com o avô que mora em porto alegre e com a prima que morava em florianópolis, mas faz duas semanas mudou-se para porto alegre. eu sempre tenho vontade de ficar em casa no natal. é nessa época que a cinza e barulhenta são paulo fica calma, serena e silenciosa. é o melhor de são paulo. mas meus filhos nunca gostam da minha ideia. e todo ano pedem para passar o natal com o pedaço da família que mora em porto alegre. eu fui e voltei bem concentrada. não queria passar a semana feito um papagaio não criativo dizendo "eu não queria vir pra cá...