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cala a boca

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ele conta que o professor dele, Namgyal Rinpoche, dizia para os alunos que deviam gritar "you shut up" toda vez que o louco dentro deles surgisse. a frase completa era "you shut up and get out of the way" - você cala a boca e saia do caminho. ao lado do meu professor, Jangchub Reid eu não o conheci, mas pelas fotos dá pra ver que Namgyal era um homem grande. meu professor, Jangchub Reid, como todo aluno, tem histórias maravilhosas do professor dele. quando nos conta essas histórias, eu imagino o professor dele, que devia dar gritos muito altos. assim como meu professor, cuja voz muitas vezes parece sair de dentro de uma caverna muito grande e muito escura. eu adoro frases, e "you shut up and get out of the way" eu anotei em um dos meus caderninhos de ensinamentos de Dharma. mas, como toda frase que escutamos e gostamos e anotamos, eu esqueci dela. até esses dias. Venerável Namgyal Rinpoche como em tudo na vida, quando nos sentamos para prati...

a qualidade da lentidão ou aquietando a louca dentro de mim

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fui dar uma olhada no texto de perfil que eu tinha no LinkedIn. ainda que eu não use muito o site. e encontrei, no meio da minha descrição de mim mesma, algo como "pratico meditação mindfulness diariamente para ser cada vez mais lenta". isso é verdade. mas eu excluí a frase. que não parece agregar ou descrever uma qualidade, mas sim uma insanidade. ontem eu havia saído de casa cedo, por volta das 9h. banho tomado, roupinha fresca, colar combinando, ia andando com a minha mochila pesada, carregando meu computador que não é tão pequeno nem tão leve quando vi, andando em minha direção, meu vizinho velhinho cujo nome eu desconheço (ou não lembro, porque eu confundo meus vizinhos velhinhos). - bom dia! - indo passear? - ele me pergunta, parando e dando a mão para me cumprimentar. - indo trabalhar. - mas a essa hora? então você é quem manda lá! - eu trabalho em casa. mas agora estou indo para uma reunião. seguimos o nosso caminho, ele indo pra casa, carregando sacolas plásti...

Na casa da mãe morta

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Visitas são como peixe fresco. Duram dois ou três dias na geladeira. Depois disso, começam a feder. Eu, que fiquei 15 dias hospedada na casa do meu pai, no Sul do país, me esforcei para não feder MUITO. É um ato de bravura ficar tanto tempo como hóspede na casa de alguém. Ou de estupidez. Ou os dois juntos. Ficar na casa da mãe morta foi bom. Eu lembrei dela todos os dias. Todas as horas. E a lembrança dela me traz alegria. Na primeira noite, dormi com as janelas escancaradas, e a luz amarela do poste da rua que fica bem na frente da casa iluminava a sala. Foi uma noite linda. Eu dormia a acordava e dormia a acordava, digerindo a emoção que foi lançar meus livros em Porto Alegre. Combinamos, eu e a louca que mora dentro de mim, que esses dias na cidade em que nasci e de onde parti 24 anos atrás seriam as minhas férias. Aquela coisa de férias de quem tem salário eu não tenho faz três anos. E aquela coisa de férias de quem não tem salário eu também não tenho faz três anos. Trou...

os dias nada divertidos passados ora na cama, ora no sofá

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nós éramos três. morávamos na última casa da rua, que era uma rua sem saída. antes da reforma, a casa era pequena e ocupava metade do terreno. a outra metade era ocupada pelo jardim. brincávamos muito. tanto em casa e no quintal quanto na rua. naquela época os pais eram corajosos e deixavam os filhos na rua até a noite chegar, hora em que as crianças voltavam pra casa contra a sua vontade para tomar banho, jantar e dormir. nós três tentávamos brincar juntos, mas era difícil. meu irmão, dois anos mais velho, tinha mais energia que nós duas. minha irmã, dois anos mais jovem do que eu, aceitava brincar, mas não lembro da nossa interação. e eu era uma chata.  brincávamos de playmobil. e para horror do meu irmão, a minha brincadeira era sempre, sempre a mesma. eu escolhia um boneco homem e um boneco mulher, que formavam um casal. eu escolhia peças para uma pequena casa e cerca, e montava a casa deles, cercada. lembro de às vezes escolher um guarda que cuidava da casa deles. essa era a...

pode parar

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"diz-se que tudo que procuramos também está à nossa procura; que, se ficarmos bem quietos, o que procuramos nos encontrará." eu já conhecia a frase, mas me deparei com ela novamente ontem, num livro que eu acabei de ler e recomecei, pra ir entendendo o que eu vou entender em uma vida inteira de leitura (a propósito, o livro é "mulheres que correm com os lobos", uma enxurrada de conhecimento acerca do feminino que toda mulher e todo homem deveriam ler algumas vezes para que cheguemos perto de algo que está muito, muito distante da maioria de nós). e agora, deitada no sofá, de banho tomado, com um lenço de seda ao redor do pescoço para aquecer uma garganta dolorida e suando como se tivesse voltado de uma corrida de uma hora, a frase ficou fazendo pim pim pim na minha cabeça. eu adoeci. e tenho a impressão de que esta é a doença de dezembro. o ano vai acabando, a minha exaustão vai subindo e, sabiamente, meu corpo dá uma desacelerada. fico doente pra me curar da min...

um ano sem comprar: eu consegui!

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ele é muito inteligente, e sempre me diz coisas que eu jamais imaginei. abri meu armário para mostrar a ele, que tinha ficado uma semana fora, a incrível organização. e suspirei, "mas passado um ano, meu armário segue cheio". "as coisas acabam menos quando você não compra nada", me disse. "e acabam mais quando você compra." uau. era isso. a conversa aconteceu umas três semanas atrás, quando eu estava perto de atingir a minha ousada meta de passar um ano sem comprar roupas (nem sapatos ou acessórios). parabéns, eu digo pra mim mesma. eu completei meu sabático. que alívio, que alegria, que liberdade. eu mando na minha carteira. eu não compro só porque está em promoção. eu preciso de muito pouco. um ano sem comprar não é pobreza, é fartura. porque só se compra o necessário. e faz você se dar conta do que é realmente necessário. e o necessário, desculpa desapontar nosso consumista interior, é muito, mas muito pouco. eu fui me livrando de tudo o que não er...

apreciar ficar só é uma dádiva

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acordei e olhei pelas frestas da porta do quarto, que estava fechada. vi que a luz do dia ainda era fraca. e eu estava certa. depois de anotar um sonho um pouco confuso, olhei no relógio do celular. eram 6h30. não sabia se hoje faria sol ou se seria um dia nublado. só sabia que seria um dia fresco como ontem. em que não usar meias pode ser um ato de coragem, mas usá-las pode dar calor. ao abrir as janelas enxerguei o céu azul. fugi para o parque. queria deixar meus pensamentos de lado, em casa, e vir sozinha ao parque tirar o mofo do corpo, dos meus órgãos, do meu olhar e da minha alma. mas meus pensamentos, teimosos, vieram comigo. a cidade virou uma cidade-fantasma. um domingo pós feriado na sexta é sempre uma alegria nesta cidade tão grande e tão cinza. seus moradores fogem rumo ao interior, ao mar ou às montanhas. eu fujo em direção a mim mesma. enquanto o sol esquenta o meu corpo, olho ao redor. aviões passam quase sobre a minha cabeça, quero-queros voam e cantam e algumas pes...