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"a vida é uma luta permanente, com avanços e retrocessos"

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tudo o que eu aprendi sobre alegria, resiliência, não julgamento e fé está de férias. fui andar para sentir no corpo o prazer de suar e esticar os músculos que todos os dias eu esqueço que tenho. mas não andei. eu me arrestei feito uma lesma infeliz pelas calçadas limpíssimas do bairro onde moro. uma senhora preta mas bem pretinha lavava o telhado de vidro da garagem de uma casa. ela estava debruçada sobre a janela aberta, onde imagino que seja o seu quarto, e segurava uma mangueira com a qual ia lavando o vidro que estava na frente e um pouco abaixo da janela. ela usava uma touca de lã justa na cabeça. cruzando a pracinha onde eu corro, mas por onde hoje eu só passei me arrastando, outra senhora de uniforme de empregada doméstica (aqueles vestidos de algodão abotoados na frente, com um avental combinando amarrado na cintura) e sandálias havaianas novinhas brancas com solado azul-calcinha varria a calçada e a entrada da garagem de outra casa. eram cerca de 7h.  eu ia andando ...

eu vou comemorar

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eu fiz uma torta maravilhosa, que na verdade assou demais e ficou dura, mas mesmo assim é uma bela torta. na receita vai maçã, mas hoje eu fiz diferente e em metade da torta coloquei pêssegos nacionais, doces e saborosos. eu vou comemorar. aliás, eu já comecei a comemorar, e por isso fiz a torta cuja receita original, que hoje eu mudei muito, é da minha mãe. a fabulosa torta de maçã da gerda. às vezes, por falar muito rápido, expresso de forma equivocada ou tosca o que quero dizer. vou me esforçando dia a dia para ser mais lenta. isso já faz anos. mas décadas de aceleração não desaparecem num piscar de olhos. é preciso paciência. lá vou eu tentando escrever devagar o que penso rápido. mas o que eu estou comemorando? o fato de termos feito tudo o que fizemos nos últimos dias e semanas para que o nosso país seja um lugar livre, civilizado e com alto índice de justiça e paz.  sempre tive orgulho de ser brasileira, de ter nascido num país vasto e belo, diverso e surpreendente....

buscando a paz em tempos de guerra

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era um dia qualquer, num fim de semana. um domingo. e eu achava que devia colocar ordem numa parte da casa que parece não fazer muita diferença no dia a dia da minha pequena família: a área de serviço. o lugar pode ser considerado inútil quando penso que vivi um ano num apartamento sem área de serviço e sobrevivi. era nos estados unidos, onde apartamentos podem até ter uma lavadora e uma secadora de roupas, mas nunca têm área de serviço. não lembro onde eu guardava o que no brasil seriam as vassouras e lá era um rodo sinistro com uma esponja na ponta. mas tudo funcionava. com um filho bebê inclusive. mas voltando à minha área de serviço, porque eu moro no brasil e sempre tive áreas de serviço aqui. estou aqui pensando por que raios uma pessoa vai falar da sua área de serviço. bem, eu vou falar porque pela primeira vez na minha vida, pelo que minha memória dá conta, eu peguei uns panos e uma escada, além de uma esponja com detergente, e lavei o armário da área. usei uma escovinha, um ...

como potencializar sensações incômodas

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ele é um cabeleireiro muito ocupado. isso quer dizer que MESMO marcando hora para ser atendida, a possibilidade de ter de esperar além da hora marcada é de 150%, no mínimo. eu sei disso há uns 20 anos. faz parte. e quando sabemos que alguma coisa não andará a contento, pensamos que é mais fácil lidar com ela. por exemplo: sair de carro em são paulo no fim da tarde é sempre uma ideia infeliz. sempre. se for imprescindível sair, você prepara doses extras do seu saquinho de bom humor, coloca-os na bolsa e sai. assim eu tenho tentado lidar nas raras vezes em que vou ao cabeleireiro. reservo mais do que uma hora do meu dia, não marco nada na sequência, vou e espero. todas essas medidas deveriam ser suficientes para que eu ficasse tranquila, mas não. oh shit. eu quero funcionar sem ansiedade, mas como ela é minha amiga de longa data, ela gruda em mim feito chiclete mascado. eca! nessas horas em que estou no salão, eu fico fingindo que estou ótima, ah-que-delícia-ter-um-tempo-para-não-faze...

o domingo de amélia

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amélia acordou e viu a hora no despertador que fica ao lado da sua cama. passava das 9h. nada mal para um domingo. ela era uma mulher comum. e como muitas mulheres comuns, achava muito bom poder acordar sem o ti-ti-ti do alarme do seu despertador, que a acordava todas as manhãs, de segunda a sexta. como uma mulher comum, amélia cuida da sua casa. ela é o que o IBGE chama de responsável pelo domicílio. e, como tal, ela não só paga todas as contas da casa, como também cuida de toda a casa. e no domingo não foi diferente. a regra que amélia instituiu na sua casa, "usou lavou", que deveria fazer com que a pia da cozinha não ficasse com pilhas de louças, não funciona todos os dias. então a primeira coisa que amélia fez naquele domingo ensolarado foi dar um jeito na pia tomada da louça. ela não gostava de tomar café quando a cozinha parecia um campo de batalha. a segunda tarefa do dia foi colocar roupas na máquina de lavar. quando a cozinha tinha se transformado em u...

obrigada, SPTrans, por nos tratar como lixo

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estudantes de escolas públicas de São Paulo têm gratuidade no transporte coletivo. eu soube disso no começo deste ano, quando meus dois filhos saíram de escola particular e foram para escolas públicas. funciona assim: todo mês, carrega-se o bilhete com as cotas determinadas pelo governo. então o aluno pode ir e voltar da escola sem pagar nada. mas as cotas são para ir para a escola, somente. ir ao cinema no sábado? encontrar os amigos no parque no domingo? só pagando a tarifa de R$ 4. eis que em julho as escolas estaduais tiveram férias de 30 dias, e a municipal onde a minha filha estuda, somente uma semana. e então as cotas do bilhete de ônibus dela terminaram, e eu achei a coisa mais natural do mundo dar a ela o bilhete do irmão, que estava em casa de férias, para ela ir à escola. esta semana, chegaram em casa duas correspondências da SPTrans para o meu filho. assinada pela gerência de comercialização e prevenção de fraude, as cartinhas, idênticas, informavam que o passe livre do ...

os cabelos vermelhos e a família feliz de josé

josé entrou no vagão acompanhado do pai, da mãe e dos dois irmãos mais velhos. como eles eram muitos, e estavam bem na minha frente, não pude deixar de notar. ele tinha os cabelos muito crespos e ruivos. sentou-se num banco individual, e em segundos estava de pé sobre o banco. logo estava sentado novamente. o pai, um homem muito magro e com a cara enrugada, possivelmente com menos idade do que parecia, ficou em pé, ao lado do banco onde o filho caçula estava sentado. mãe e filha sentaram-se nos dois bancos próximos ao de josé, e o filho do meio sentou-se sozinho e de costas para toda a família. eu olhei para o pequeno ruivo e ele abriu um sorriso enorme. os dentes da frente não eram brancos, mas de onde eu estava não dava para ver se eram dentes escurecidos por alguma batida ou se eram dentes podres. o sorriso do menino era maravilhoso. assim que as portas do vagão fecharam, um gorducho que estava de pé anuncia que faz parte de uma organização, eu não consigo entender tudo o que el...